sábado, 2 de janeiro de 2010

O país onde os professores são venerados


São mal pagos mas venerados. Perante eles, os alunos ajoelham-se ou sentam-se a seus pés com as mãos juntas, como só o fazemos perante os altares. São os Gurús, do sânscristo Ku-rú, que os thais fixaram e modernizaram como Krú. Os professores primários e do liceu são chamados Krú, mas aos docentes universitários é reservado o tratamento de Adjaân, ou seja, guias, mestres e reveladores do conhecimento. Numa sociedade que se inspira no modelo bramânico, o krú é o eco tardio do sacerdote bramânico, casta despojada de riqueza material, acima das preocupações que movem artífices, comerciantes, soldados e administradores. Perante eles, os tailandeses assumem uma atitude reverente, não falam, ouvem e acenam afirmativamente com pequenos movimentos de cabeça. Aqui não se bate nos professores, não se insulta um professor nem há comissões de pais iracundos fazendo esperas, proferindo ameaças e justificando o fracasso dos rebentos na culpabilização de um professor. Este é, sem tirar, o paraíso daqueles que ao ensino consagraram as vidas, escolhendo nessa ocupação a pobeza voluntária compensada pelo tributo de respeito e agradecimento dos jovens aos quais consagram as vidas.
O Krú é a antítese do "colarinho branco", do "executivo" e do obcecado pelo dinheiro. No funcionalismo do Estado, o Krú tem direito a um uniforme de cor creme, a divisas, galões e medalhas, que orgulhosamente ostenta. Um professor primário é um alferes ou tenente, um professor de liceu um capitão, um assistente universitário um major, um doutor um coronel. Das mais remotas aldeias e vilas da Tailândia rural às grandes universidades da capital, envergam a farda do seu métier e é habitual vê-los, orgulhosos, passear pelas ruas ou pelos mercados entre a massa da população que, ao identificá-los, sorri agradecida.
Está em exibição nos cinemas um filme que é a exaltação do professor. Tem por título Krú Bâan Nok - o Professor da Aldeia dos Pássaros - e conta a saga de um jovem professor primário chegado aos confins da Tailândia nos anos 60. Ali chegou para ensinar a ler, escrever e contar, mas também para estimular a iniciativa colectiva, demonstrar os benefícios do saneamento básico, da limpeza e asseio dos corpos e das ruas, do exercício físico, do patriotismo e da cidadania. É um hino à heroicidade do funcionário do Estado que não busca recompensa pecuniária, que se defronta com a reserva dos poderosos e acaba por se tornar no líder da Aldeia dos Pássaros. Comovente, arrebatador, merecedor de cópia entre os portugueses.
Há dias encontrei uma velha professora universitária nos arquivos nacionais. Eu estava na companhia de um americano que ali também faz investigação. A senhora, nos seus setenta anos, perguntou-me o que ali fazia. Naturalmente, estando ela sentada, não fiquei de pé nem me sentei na cadeira vazia que ela me indicara. Vergei as pernas e coloquei-me, como o fazem os thais, num nível inferior à cabeça da professora. O americano, esse ficou de pé, com as manápulas nos bolsos e a mascar pastilha-elástica. No fim, perguntou-me: "que raio de posição a tua, até parece que lhe deves alguma coisa". A típica atitude do ocidental, que olha para os professores como pessoas que não possuem predicados para fazer dinheiro; logo refugiam-so no ensino. São dois mundos. Por mim, estou cada vez mais deste lado da civilização.

2 comentários:

  1. Estou neste momento em Mae Sariang. A história dos professores pelas aldeolas aqui há volta é um pouco igual ao que acontece também em Cambodia e concerteza em muita parte do mundo. As crianças de famílias muito pobres não podem ir para a escola pois os professores exigem que os pais lhes dêem coisas em retorno de ensino. Isto é ilegal evidentemente mas comum.

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