sábado, 8 de janeiro de 2011

Clara, a primeira siamesa diplomata


Chamava-se Clara Xavier, ou antes, menina de Phipat Kosa, filha de Celestino Maria Xavier, aliás Phraya Phipat Kosa, secretário de Estado sob Rama V, fundador e administrador da empresa que instalou os eléctricos em Banguecoque no início do século XX e, depois, embaixador do Sião em Roma e representante do reino do Elefante Branco na Sociedade das Nações. Clara partiu de Banguecoque para Londres, onde cursou enfermagem no South London Hospital for Women. Ao receber o diploma, foi requisitada pelo seu pai e foi secretária da legação siamesa em Genebra. Tantos feitos numa só rapariga vinda do outro canto do planeta. Siamesa católica, falando fluentemente português, esta nossa Clara foi modelo para o tímido movimento que no Sião reclamava a igualdade jurídica entre homens e mulheres. Há tanto por contar a respeito dos portugueses !

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Novíssimas do Sião: a siamesa da Évora quinhentista

Graças a uma conversa absolutamente fortuita com um amigo investigador, estamos a milímetros de destruir um lugar-comum que se trombeteava pelas holandas desde há séculos. Em 1608, um galeão holandês comandado por Corneluis Matelief trouxe à Europa uma embaixada siamesa enviada pelo rei Ekathotsarot. Recebidos por Maurício de Nassau, os diplomatas permaneceram na Haia rodeados por viva curiosidade. Muito se tem escrito sobre esses "primeiros siameses na Europa de Seiscentos" e há dois anos, em Banguecoque, foram esses fastos lembrados em exposições e conferências por altura das celebrações milionárias dos quatro séculos de relações entre a Tailândia e a Holanda.

Um pequeno senão. Os holandeses receberam siameses, sim senhor, mas quase trinta anos depois de uma rapariga thai ter saído dos porões de uma das naus da carreira da Índia para aqui passar o resto das sua vida como escrava "Índia de nação sioa" ao serviço de uma casa nobre. Foi baptizada, recebeu nome cristão e viveu em Évora. Mais uma pequena pedra para o sempre incompleto como fascinante edifício da história das relações entre os dois países.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Azeitão do Sudeste Asiático


Os thais chamam à sua capital Krung Thep Mahanakhon (กรุงเทพมหานคร), pelo que se o caro leitor se referir a Bangkok (Banguecoque em português) em frente de um tailandês comum, este não compreenderá de que lugar se está a falar. Isto tem uma explicação. Bangkok foi criada por portugueses em meados do século XVII e, traduzido para português, quer dizer tão só Azeitão ou "aldeia das azeitoneiras" (Ban = aldeia + Kók/กอก = oliveira). Originárias da América do Sul, as azeitoneiras Spondias mombin (cajá-manga para os brasileiros) foram introduzidas no Sudeste-Asiático pelos portugueses em inícios do século XVII e usadas como base para molhos e conservas, ou seja, com a mesma finalidade do azeite de oliveira na Europa da Antiguidade e Idade Média. A aldeia de Bangkok nasceu no actual distrito de Samsen, três quilómetros a norte do complexo religioso-administrativo do palácio real, que só seria erigido a partir de 1782. Ali havia uma igreja em madeira que servia o Padroado e era em Bangkok que as embarcações que subiam o Chao Phrya (rio de Bangkok) em direcção à antiga capital (Ayutthaya) interrompiam a sua viagem para receberem pilotos experimentados na navegação fluvial. Estes pilotos eram luso-siameses católicos, os únicos siameses que falavam a língua franca comercial e diplomática da região entre os séculos XVI e XIX, a língua portuguesa.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

1767: a revolta dos portugueses escravizados


Nos últimos dias de Ayutthaya assistiu-se à dissolução por inteiro do corpo de uma sociedade. A capital de 300.000 habitantes entrou em colapso, incêndios que ninguém combateu comeram até às fundações templos, palácios e armazéns, houve saque generalizado das reservas de víveres , brutais matanças às mãos dos invasores birmaneses e muita gente fugindo em grupos para os bosques infestados de animais selvagens ou percorrendo os caminhos dominados por bandos de ladrões. O rei siamês foi abandonado pelo séquito nas imediações da sua capital e morreu de doença e desidratação. O exército desintegrou-se. Ao ocuparem as últimas bolsas de resistência, os birmaneses deram aos sobreviventes duas semanas para que se preparassem para evacuar a região e rumassem em direcção ao cativeiro na Birmânia. Os sobreviventes da missão francesa, dirigidos pelo bispo Mgr. Brigot, concentraram-se no campo português, já então completamente calcinado pelos birmaneses. Aos católicos juntaram-se outras comunidades - Mon, Peguanos, Vietnamitas católicos e Japoneses - tendo-lhes sido transmitida análoga ordem de evacuação. Os católicos luso-siameses fizeram saber aos birmaneses que recusavam submeter-se à autoridade do bispo francês e que tinham como líderes espirituais os padres portugueses Isidoro da Conceição e Bernardino Salema.
Os padres franceses juraram ali fidelidade aos novos senhores e aceitaram a ordem de evacuação e cativeiro. Esperava-os, porém, uma marcha da morte de oitocentos quilómetros por montanhas e alcantilados densamente arborizados. As colunas de prisioneiros foram avançando penosamente em direcção a Oeste, atormentados pela fome, pela sede e sempre agredidos pelos seus carcereiros. A via sacra durou seis meses e nela padeceram milhares. Ao chegarem a Tavoy, na costa do Mar de Andaman, tamanha era a fome que ocorreram casos de canibalismo. A coluna de Brigot só sobreviveu graças à ajuda caridosa recebida das missões católicas portuguesas em Tenasserim. Os adversários reconciliavam-se na hora da dor. Ao invés de aceitarem o infortúnio, partilhando-o com o seu rebanho, os padres franceses conseguiram transporte para Pondicherry - colónia francesa no sudeste indiano - e abandonaram à sua sorte aqueles que neles haviam confiado; em suma, uma excelente lição de abnegação e dedicação missionárias.
A coluna portuguesa iniciou marcha em direcção à Birmânia em Maio de 1767. A comunidade mantivera-se unida e mantinha a liderança, pelo que ao longo do trajecto foram discutindo a melhor forma de se furtarem à vigilância do batalhão birmanês que os acompanhava. Após três semanas, numa noite escura, os portugueses manietaram os guardas, mataram-nos e puseram-se em fuga. Ao ser informado desta rebelião, o comandante birmanês da região foi acometido de grande ira e deu ordens às tropas para que massacrassem todos os portugueses internados nas matas. Dois generais birmaneses, com numerosos efectivos, foram lançados no encalço dos fugitivos. Para os portugueses foram nove longos meses de marchas nocturnas e pausas diurnas. O inimigo rondava e o silêncio e a imobilidade constituiam a melhor máscara. Ao cair do sol, retomavam o caminho em direcção a leste. A morte foi reclamando vidas. Dos mil saídos de Ayutthaya, só sobreviveriam 300 quando, em Abril de 1768, andrajosos e famintos, chegaram à actual Banguecoque.

No Sião, um novo homem forte revelara-se. O general Sin, mestiço sino-thai, organizara a resistência ao ocupante e instalara o seu quartel-general em Thonburi, hoje cidade satélite de Banguecoque situada na margem oposta do rio. Os portugueses de Ayutthaya instalaram-se provisoriamente em torno de uma igreja em Sam Sén pertencente ao Padroado. Este templo alberga hoje uma das mais sólidas comunidades luso-descendentes e dá pelo nome de Igreja da Conceição. Thaksin (Sin) foi informado da chegada desses portugueses e deu ordens expressas para que se apresentassem em Thonburi. Deu-lhes terra (Campo de Santa Cruz) e materiais para que ali erigissem uma igreja. Os membros da comunidade depressa se destacaram pelo destemor nas batalhas, pelo que o rei Taksin entre eles escolheu os setenta e oito mais bravos e deles fez a sua guarda pessoal. A guerra que faziam sem pausa nas hostes do rei não era, porém, reconhecida pelos padres franceses que, de novo, haviam aparecido para reclamar os direitos sobre a Missão do Sião. As mais agrestes, injustas e infames páginas foram então escritas e enviadas para França pelo padre Corre e companheiros. A estas intempestivas considerações, a comunidade virou-lhes as costas. Imaginemos, pois, a fúria de tão bons pastores quando, em Maio de 1770, o Rei siamês em pessoa visitou o campo cristão e fez aos franceses os mais rasgados elogios aos "meus portugueses". Disse: "estes homens nada sabem de saques, são fiéis e bravos e têm a protegê-los a mais antiga religião do mundo" (Carta de M. Corre aos directores do Seminário das Missions Étrangères. AME, vol 886, p. 445).

Depois, foram doze anos de campanhas militares no norte, no sul e leste. O Sião ia despertando e reapossando-se das regiões que se haviam furtado à sua autoridade após o colapso de Ayutthaya. Nessas batalhas sem fim, a comunidade luso-siamesa esteve sempre na dianteira e pagou pesado tributo à morte. Na correspondência dos missionários franceses evidencia-se este estado permanente de mobilização. Numa das cartas, o padre francês afirma que "em Thonburi só há mulheres e crianças, pois os homens [cristãos] estão permanentemente fora, entregues a missões de guerra longe de casa".
Esses Rebelos, Cruz, Martins, Soares, Silvas, Baptistas e Fernandes morreram um pouco por todo o Sião. Ao regressarem, os sobreviventes encontraram as suas famílias entregues a pobreza extrema mas, como lembra o insuspeito padre francês, sempre com o mesmo incorrigível orgulho português. "Uma jovem rapariga foi pedida em casamento por um rico mandarim (funcionário do Rei). Ao receber o convite, respondeu-lhe generosamente que a posição de cristã era superior à sua [do mandarim] e que ela não sacrificaria a sua qualidade a todas as riquezas do mundo e que mais facilmente se casaria com um pobre cristão que com um rei gentio". Dizimada e reduzida a 1/5 do seu efectivo inicial, esgotada pelas provações e isolada do mundo exterior, a comunidade não desertou, recusou-se servir o inimigo e manteve-se leal ao poder siamês. Carregando prestígio de cicatrizes e louros de vitória, seria ao longo dos próximos oitenta anos um dos mais vigorosos pilares do Sião pré-moderno. Pena que esta e outras histórias não tenham acolhimento nos manuais escolares portugueses.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Ayutthaya, 1767: aqui lutou-se até ao último grão de pólvora


Maquete de Ayutthaya fora-de portas no século XVII. À direita, o bandel dos portugueses.

A convite da leitora de Português em Banguecoque, passei hoje o dia em Ayutthaya, antiga capital do Sião onde, até 1767, residiu forte comunidade católica luso-siamesa. A visita de estudo inscreve-se nas actividades culturais da nossa embaixada e foi largamente correspondida por uma quarentena de amigos de Portugal, luso-descendentes, alunos de língua portuguesa e até funcionários da nossa embaixada. Tudo está a ser feito para, em crescendo de actividades, se celebrar aqui em 2011 o meio milénio de relações entre a Tailândia e Portugal. Pediram-me - a Luísa Dutra e a Pralom Bunrasamee, tradutora de português e também professora - que apresentasse sumariamente aos participantes o bandel português e fizesse o historial daquele que foi, até à sua completa destruição, um dos mais fortes núcleos de população católica em terras da Ásia até finais do século XVIII.

Ao invés de uma aula de história, preferi, como é meu timbre, fazer um exercício de "patriotismo científico" e contar-lhes, sem lenda nem ficção, os derradeiros dias dessa orgulhosa gente numa luta sem quartel e sem esperança na defesa do seu Rei (o Rei do Sião), da sua religião (o catolicismo) e da sua casa (Ayutthaya). A aldeia portuguesa situava-se fora de muralhas e tinha como edifícios axiais o templo dominicano, a igreja franciscana e o seminário-templo dos Jesuítas. Quando a sorte se inverteu contra Portugal em meados do século XVII e um a um caíram os grandes centros da actividade portuguesa na Insulíndia, populações católicas luso-descendentes de Celebes e Malaca afluíram a Ayutthaya em busca de segurança. A população do Ban Protukét ascendeu a 4000 ou 5000 pessoas devidamente comandadas por um Capitão eleito pelo povo cristão e confirmado pela corte siamesa.

Evocação de uma das glórias militares portuguesas em terras do Sião

A Este do Ban Protukét, na margem oposta do rio Chao Phrya, situava-se a aldeia japonesa, quase inteiramente integrada por católicos fugidos às perseguições anti-cristãs do Japão dos Tokugawa. A Oeste, encontrava-se o seminário-igreja de Saint Joseph, que os padres missionários franceses haviam estabelecido na década de sessenta do século XVII após inúteis tentativas de submissão dos portugueses. Os franceses, coitados, com ou sem bula papal, pouco ou nada conseguiram fazer no Sião e resignaram-se a intrigar junto da Santa Sé, da corte do Rei Sol e dos reis siameses contra aquela gente que recusava trair a fidelidade ao Padroado. Como lembrou recentemente Alain Forest, a missão francesa no Sião entreteve-se em receber e formar catecistas vietnamitas no Sião e a ensinar a língua vietnamita aos sacerdotes franceses. Nunca foram obedecidos nem estimados pelos católicos siameses, pois desde cedo exibiram uma confrangedora ignorância sobre as características do meio e dos mecannismos profundos da organização social siamesa, para além de confundirem o seu papel de missionários com os objectivos da diplomacia francesa.

Dois luso-descendentes

Ora, quando nas primeiras décadas do século XVIII Ayutthaya perdeu a força de grande potência no Sudeste-Asiático e emergiu a belicosa e expansionista dinastia Konbaung na Birmânia, as populações do mandala siamês foram expostas a um inimigo que fazia tábua-rasa da cultura política das relações internacionais da região e que exercia a guerra como única modalidade da acção externa. O fundador dessa dinastia, Alaungpaya, conhecido pelos métodos brutais de aniquilamento dos estados vizinhos, após reduzir a cinzas o Pegú, invadiu o Sião em 1759 e assediou Ayutthaya. A investida, brutal e sem qualquer respeito pelas convenções da guerra, plasmadas pela doutrina budista que aconselhava batalhas-torneio entre voluntários, em vez de choque entre exércitos, deixou os siameses aterrorizados. A guerra que o gigantesco exército birmanês trazia era inteiramente nova. Não visava troféus, mas o aniquilamento completo do adversário, lançava mão de massacres sistemáticos, destruição integral de cidades, vilas e aldeias e redução à escravidão dos sobreviventes; em suma, uma guerra norteada pelo intuito de infundir terror e desertificar regiões. Em 1760, já às portas de Ayutthaya, o exército birmanês foi detido precisamente no Bandel Português. A oposição que encontraram foi tão dura, as perdas dos atacantes tão grandes que Alaungpaya deu instruções de retirada. Nas últimas horas, já as suas tropas retiravam desordenadamente ante a contra-ofensiva dos portugueses, o rei birmanês caiu por terra, fulminado pelos estilhaços de uma peça de artilharia que explodira ao fazer fogo sobre o Ban Protukét. Ayutthaya salvara-se pela resistência e grande sangue frio dos católicos ante o mar birmanês.

Os restos do grande templo no coração de Ayutthaya

Os birmaneses lamberam as feridas e reorganizaram-se. Em 1765, um imenso exército, agora comandado por Hsinbyushin, filho de Alaungpaya, invadiu de novo o Sião disposto a reduzir a pó a capital do Sião. A cidade estava exangue, o seu comércio declinante e lutas intestinas haviam enfraquecido Ayutthaya, pelo que, de novo, os birmaneses avançaram sem dificuldade até às muralhas da grande capital. Os bastiões foram guarnecidos com católicos do Ban Protukét, mas os restantes habitantes do bandel, fora de muralhas e expostos a grande perigo, recusaram-se abandonar os seus templos e aí se barricaram. Resistiram a todas as investidas birmaneses, causando-lhes milhares de mortos. Incapazes de derrotar os católicos, atacaram o aldeamento japonês na outra margem, reduzindo-o a escombros, destruindo depois as feitorias inglesa e holandesa da VOC. Muitos japoneses, holandeses e ingleses atravessaram a nado o rio e procuraram refúgio na aldeia portuguesa. A esta afluiram também muitos peguanos e chineses que tinham os seus bairros nas proximidades. Ayutthaya ardia e os soldados siameses já não obedeciam, fugindo para evitar o extermínio. O Ban Protukét resistiu durante seis meses a bombardeamento de artilharia e ataques frontais da infantaria, elefantes e cavalaria birmanesas. Nos últimos dias de Março de 1767, sem víveres e sem munições, os portugueses aceitaram depor armas. Era o último reduto de resistência. Ao contrário das promessas do inimigo, mal entregaram as armas, homens, mulheres e crianças foram severamente agredidos, alguns mortos ali mesmo e os restantes reduzidos à escravidão.

Monge budista. Wat Phra Ram (Templo de Buda-Rei)

Hoje, junto do cemitério onde jazem cerca de 200 restos mortais de luso-siameses, evoquei essa tragédia. Aquela gente lutou até ao último grão de pólvora e não vacilou ao decidir lutar pela sua liberdade. Uma lição de heroísmo que integra as mais vibrantes páginas da saga portuguesa nos confins desta Ásia que celebrará proximamente a aliança na paz e na guerra entre dois povos. Os luso-siamses terão compreendido perfeitamente o sentido daquela façanha que hoje evocámos. Os tailandeses, todos falando um excelente português, compreenderam, também eles, que os portugueses não vieram aqui apenas para fazer business pois, chegada a hora decisiva, lutaram ombro a ombro com os siameses na defesa da terra comum, não deixaram cair a bandeira e não tentaram, como outros, fugir e salvar os cabedais. Morreram pela sua liberdade; é tudo. Isto merecia uma coprodução épica luso-tailandesa ou o nome de uma avenida lisboeta: Avenida dos Heróis de Ayutthaya.Há quem pretenda espezinhar, ridicularizar e até fazer esquecer aos portugueses a grandeza e a honra de o serem. Só quem não for digno do nome de Portugal pode persistir em negar a esta nação as mais vibrantes páginas da história da nossa civilização.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Realismo lírico: amor proletário

Seis da tarde, Banguecoque. Dois trabalhadores da construção civil. Ele cabeceando de sono, um sono semi-acordado martirizado pelos solavancos do carro, pelo barulho do tráfego e pelo calor inclemente do sol. Ela, sem sapatos e com meias de criança, lenço sobre o rosto, dormindo e confiada na mão protectora que a ampara.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Umbigos colonialistas

As comunidades ocidentais "expatriadas", como aqui se diz, reunem-se uma ou duas vezes por ano: por altura do Ano Novo e por ocasião das festas nacionais dos países. Há comunidades fortes e influentes, ricas, empreendedoras - dinamarqueses, suecos, alemães, italianos, britânicos - como as há tão discretas e invisíveis que dir-se-ia não existirem. Há aquelas que se unem para patrocinar edições de obras sobre as relações históricas entre o Sião e os seus países de origem, animar exposições de artes, promover encontros e, até, abrirem restaurantes e pub's. Há, finalmente, aquelas que se encontram para matar saudades do idioma e para pôr em dia a má-língua. Dizia-me há tempos um grego, meu companheiro de escola de língua thai, que evitava participar nesses encontros, pois a miniatural confraria dos seus conterrâneos parecia ter-se especializado em dizer mal de tudo o que à Grécia e à Tailândia respeitava.
Os europeus possuem destas coisas. Querem sair da Europa a todo o transe, não gostam do clima frio, das chuvas e das neves, da água gélida das praias, da vida cinzenta, das intrigas do trabalho, das arrelias da política. Contam ansiosamente os meses, as semanas e os dias que precedem as férias de verão para partirem para os trópicos, mas quando se fixam nos trópicos fecham-se nas suas referências e encasulam-se numa blindagem de preconceitos contra a sociedade que os acolheu, ou desgastam-se em estéreis lutas intestinas. Vivem fora, olham de fora, criticam, desprezam, mas gostam de aqui viver. Europeus há aqui que nestas terras vivem há décadas e não falam meia dúzia de palavras em tailandês, não lêem uma linha, nunca entraram num museu, num templo, não sabem o significado dos códigos morais e de etiqueta locais, não passam do bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Uma vizinha canadiana teve o atrevimento de se zangar com a sua mulher-a-dias porque esta não compreendera o significado do dia de natal e aparecera, como sempre o faz, para limpar a casa no dia 25 de Dezembro. Outro, suíço, gabou-se ter sobrevivido dez anos com recurso a linguagem gestual.
Inventaram um mundo. O fenómeno não é tailandês; é uma velha tendência colonial que já Roland Meyer, que assinava Komlach, detectara no Camboja do Protectorado Francês dos anos Vinte do século passado: "os brancos sem raízes que amaldiçoam e ignoram o Camboja desde os confins do seu bairro europeu, onde preservam as pueris manias da sua vida dita civilizada". No fundo, querem é criados, passar por grandes senhores, exibir status. O Ocidente só perde, pois nada sabe sobre o Oriente e o que julga saber não passa de fantasias colonialistas.Diverte-me ouvir os colonialistas falarem aos tailandeses de "Lord Buda", quando os thais não sabem o que Buda significa, pois aqui é referido como Phraá. Rio-me das referências que fazem a Luís XIV, a Platão, a Proust, a Degas, a Brecht e ao estilo barroco. Os thais sabem tanto disso como nós de Phra Narai, Sunthorn Phu, Kukrit Pramoj, Vajrayana, o Ramakien, o teatro likay.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Curiosidades tailandesas: sem medos e sem as vergonhas ocidentais

Sou distraído, pelo que só recentemente me dei conta de uma prática aqui muito arreigada, interpretada como supino gesto de cavalheirismo. Na Tailândia, quando os casais se passeiam, os namorados/maridos insistem em transportar a mala do seu par. Já cheguei a ver oficiais de alta patente, carregados de medalhas, transportando airosamente nas mãos uma malinha cor-de-rosa com arreios dourados.
Todos os actos delicados passam por suphab (educação) ou nissay dii (bom comportamento), pelo que as senhoras ficam Kreng Jáy (agradecidas e em dívida) para com tais manifestações.
Não me atrevi violar ostensivamente a privacidade das pessoas, mas pelos dois exemplos fotografados [de costas] fica a sugestão. Aqui, marido e mulher vão juntos ao cabeleireiro e à manicure, enchem a casa e a cara de cremes e até parece que partilham o make-up. Enfim, um monumento à igualdade. Entre nós, saídos recentemente do neolítico, até se exigia que os homens cheirassem a cavalo e se rissem sobranceiramente das colónias e dos roll-one. O mundo é um espectáculo de diferenças.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Povo mágico, povo de mágicos

Os siameses pelam-se por astrologia, quirologia, adivinhação, magia, numerologia, nigromância e espiritismo. São, sem tirar, iguais aos gregos e romanos da Antiguidade, pois a cepa comum indo-ariana plasmada pelo sânscrito - essa língua universal do conhecimento isotérico - criou uma comum visão do mundo que cobriu um largo arco geográfico que ia do Sudeste-Asiático ao Tibre e só foi destruída pelo advento do cristianismo. Os thais são, assim, um "povo antigo", com um "conhecimento antigo" no qual não há fronteiras claras entre o racional e o irracional, o sagrado e o profano, o temporal e o espiritual, o mundo dos deuses e o mundo dos homens. Tudo para eles é entendido como manifestação de poderes imanentes que não podem ser contrariados, mas apenas atenuados pela elevação espiritual de cada um. Ao contrário do que deste entendimento da vida escreveram duas ou três gerações de positivistas europeus, o conhecimento oculto não é fonte de alienação, mas segurança, não gera o fatalismo, mas fortalece os indivíduos nas afições, não semeia o desespero, mas alimenta a esperança. Quando confrontados com grandes desastres, os thais lançam mão de todos os recursos, falam com todos os deuses, franqueiam todos os templos - budistas, protestantes, católicos, jainistas, hindús - e pedem ajuda. A lógica parece ser: quantos mais deuses tiver do meu lado, mais facilmente poderei sair desta aflição. Este ecletismo e sincretismo religiosos são bem patentes. As pessoas trazem consigo, pendendo no peito, amuletos pré-budistas, imagens do Buda e crucifixos. Depois, tatuam-se com fórmulas propiciatórias que outrora se dizia permitirem imunidade contra os espíritos malignos e facultavam ora a invisibilidade, ora repeliam as armas dos inimigos.

Um dos filões mais produtivos da indústria cinematográfica local é, como não poderia deixar de ser, as fitas sobre Pí (espíritos) e o tema de conversa mais apetecido, para além da comida, são questões de natureza religiosa. As pessoas lêem avidamente, tal como no Ocidente medieval acontecia, textos edificantes: vidas de monges, jatakas do Buda - vidas anteriores do Iluminado - experiências de meditação nos "templos da floresta", sonhos e até viagens ao mundo do além.


Um dos fascínios dos thais é a magia. A patetice de alguns europeus interpreta este fascínio como demonstração de infantilidade. Como povo lúdico, os thais encontram na magia um divertido jogo de fintar as "leis naturais", ludibriar os sentidos, brincar com as certezas de cada um. Porém, mais profundo que o inocente divertimento, demonstra-se a Annica (ou impermanência), que é uma das grandes certezas do budismo. Tudo está em mudança e até as leis naturais podem ser contrariadas. Escandalizavam-se os missionários católicos franceses com o Rei Taksin (1767-1782) quando este lhes afirmava que se havia finalmente libertado das leis da atracção e que podia voar.
Em Banguecoque há centenas de bancas de magia. Vai-se ao astrólogo, ao vidente, ao intérprete de sonhos como se vai ao médico. Ali correm milhões dos bolsos aflitos, mas também correm milhões pela atracção pelo desconhecido. Recentemente, a magia também se colocou ao serviço dos turistas. Com um grande sorriso, os mágicos oferecem nas ruas sessões de magia ao alcance de qualquer um e, terminada a exibição, vendem os produtos e os segredos de mágica aos farangues (estrangeiros brancos). O mágico da foto realizou a proeza de vender em cinco minutos 50 Euro de produtos a três europeus extasiados. É o caminho das estrelas.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Dolorosas novas

Encontrei ontem doloroso testemunho da tragédia portuguesa de 1908. Datada de 15 de Fevereiro - uma semana após o regicídio - assinada por D. Manuel II, a carta anunciava ao Rei Chulalongkorn do Sião o passamento do Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Mais que uma breve e protocolar nota informativa, presente-se a dor do novo e jovem monarca ao dar a triste notícia a um chefe de Estado que vivia no outro lado do mundo, mas que tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente em 1897, quando Chulalongkorn por Lisboa passou em digressão oficial. Os arquivos tailandeses estão, como verifico, carregados de testemunhos portugueses, aqui encontrado valiosos documentos que em Lisboa, na voragem de insensibilidade, criminosa incúria e facciosismo se perderam para sempre. Que vergonha ter de vir à Tailândia para encontrar documentação portuguesa, escrita em português e emitida pelo Estado Português.

(...) "As mortes do meu muito amado e prezado pai e do meu muito querido irmão, vítimas de abominável assassinato deixaram-me entregue, bem assim à totalidade da Nação Portuguesa, na mais profunda aflição. (...) O interesse que VM sempre mostrou por toda a minha família é consoladora esperança de que Vossa Majestade tomará uma viva parte na acerba mágoa que me causaram tão cruéis golpes. Chamado n'estas tristes circunstâncias, pela ordem da sucessão e na continuidade das leis do Reino de Portugal, ao trono de meus antepassados, rogo a Vossa Majestade haja dispensar-me os mesmos sentimentos de afecto que dedicava ao Augusto Monarca falecido e de ficar certo do vivo desejo que tenho de estreitar cada vez mais as relações de boa inteligência que felizmente subsistem entre os nossos países (...)".

Dois anos depois, a república era imposta a tiros de canhão e as relações luso-siamesas eclipsaram-se, passando a representação consular para mãos de italianos pelas décadas de 20 e 30, até à chegada de um português nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Portugal perdeu, então, a última oportunidade de manter no Sião o estatuto de potência aliada, a mais antiga e respeitada, que os siameses sempre lhe haviam tributado. O estado de coisas foi tão confrangedor que um dia, por volta de 1911, a polícia siamesa entrou pelo nosso consulado adentro para questionar os residentes a razão "daquela bandeira que ali puseram no jardim". Referiam-se, claro, à verde-rubra que ninguém conhecia e que Lisboa não tivera sequer a sensatez de anunciar aos países com os quais mantinha relações diplomáticas. Coisas do amadorismo de uma república que se vai celebrar !

sábado, 9 de janeiro de 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: os portugueses que dominaram Hong Kong


Clerk's of Councils, ou seja, Secretários Gerais da Colónia, José Maria de Almada e Castro e seu irmão Leonardo de Almada e Castro ocuparam durante décadas a terceira posição na hierarquia administrativa de Hong Kong e foram decisivos para a moldagem institucional da mais importante colónia da coroa britânica no extremo-Oriente. Conselheiros de John Bowring, governador de Hong Kong e embaixador incumbido de negociar o primeiro "tratado desigual" com o Sião em 1859, mantiveram-se como influentes figuras e, depois, o clã Castro ocupou relevantes posições até vésperas da Segunda Guerra Mundial. Não se tratou de caso isolado. Já antes da ascensão dos Castro, outro português, Alexandre Grande-Pré, ocupara as funções de Secretário da Colónia nos conturbados anos 40, ou seja, imediatamente após a cedência de Hong Kong ao Reino Unido, no desfecho da Primeira Guerra do Ópio. Grande-Pré foi depois comandante geral da polícia.
Os britânicos, tal como acontecera em Penangue em finais do século XVIII e em Singapura no primeiro quartel do século XIX, tentaram compreender o funcionamento e aplicar o modelo português, tido por mais experiente e alicerçado num profundo conhecimento dos modos e práticas asiáticos.
Hong Kong fazia parte, em 1848, do "império-sombra" português na Ásia. Ali funcionavam três escolas católicas - uma para rapazes europeus, leccionando em português e inglês; outra para raparigas e outra para chineses - e o ensino aí praticado era considerado modelar, pois desenvolvido por "scholars" (1). Em finais do século XIX, entre 10.000 britânicos e estrangeiros vivendo na cidade, 1.263 eram portugueses; ou seja, 12% de elite da colónia, pois que a massa dos quase 200.000 chineses ocupava funções modestas e detinha acesso limitado à engrenagem do poder.
Não deixa de ser sintomático o facto de Portugal abrir o primeiro consulado em Hong Kong antes de quaisquer outras potências europeias presentes na Ásia e, também, o facto do Sião ter aberto consulado em Macau anos antes de nomear um representante em Hong Kong. No trabalho que realizo detecto outra curiosidade: a chegada ao Sião, nas décadas de 60, 70 e 80 de muitos portugueses de Macau, fez-se através de Hong Kong; ou seja, Hong Kong era utilizado como agente difusor da rede informal de poder que os portugueses possuíam há muito. Positivamente, os portugueses viviam dentro do aparelho britânico, dominavam-lhe as fragilidades e tiravam partido da força britânica para se candidatarem a concursos para lugares de conselheiros junto da corte siamesa.
A defesa de Hong Kong foi, também, desde os primeiros momentos da colonização britânica, entregue a portugueses. Ao criar-se o Corpo de Voluntários, em 1854 - sintomaticamente durante a governação de Bowring - com a incumbência de proteger a cidade e manter a ordem pública, o número de portugueses fardados e armados atingia 15% dos efectivos. Os Voluntários Portugueses mantiveram-se como força relevante do dispositivo militar da colónia até à invasão japonesa de Dezembro de 1941 e muitos pagaram com a vida a defesa da sua terra, caso muito similar ao dos luso-descendentes na Malaia Britânica (actual Malásia), que foram notados pela bravura que demonstraram ao longo dos anos de guerrilha anti-nipónica (1942-45). Igualmente em Xangai se constituiu um Corpo de Voluntários Portugueses, que executava tarefas de vigilância e manutenção da ordem dentro do perímetro da Concessão Internacional.
Para todos quantos cultivam o miserabilismo como princípio para a análise da presença recente portuguesa nesta paragens, estes curtos apontamentos surgem como uma provocação. O propósito não é, evidentemente, provocar, mas contrariar lugares-comuns e essa tremenda inibição que tem feito de nós e da nossa historiografia um caso perdido e digno de piedade no triunfalismo historiográfico que domina a visão anglo-saxónica. Há muito que fazer e investigar, mas este é, creio, o caminho certo.

(1) ENDACOTT, G.B. A history of Hong Kong. London: Oxford Press, 1964

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Anna Leonowens era portuguesa

De Susan Morgan, Bombay Anna é, indiscutivelmente, o desvelar de um mistério que a biografada e sua descendência quiseram sepultar. Bristowe, o maior conhecedor da vida de Leonowens já o dissera há muitos anos: essa Anna não era, não podia ter sido britânica de nascimento. Anna Leonowens, a famosa governanta do Rei do Sião que inspirou o clássico musical de Hollywood The King and I, com Deborah Kerr e Yul Brynner, era, afinal, uma pobre rapariguinha meia-casta nascida em Bombaim. O avô de Anna seria um desses deserdados de poucas letras nascido num qualquer deprimido pequeno mundo rural inglês de inícios da Revolução Industrial que Chegara à Índia sem eira e alistara-se como praça no exército da British East India Company. Ali conheceu na "Cidade Negra" (ou Cidade Nativa) uma rapariga Topass (1) - isto é, euro-asiática católica de ascendência portuguesa - com quem contraiu matrimónio. Desse casamento que teve desfecho na prematura morte do soldado, nasceu Mary Anne, mãe de Anna "Leonowens". Esta, casou aos treze anos com um sargento sapador, mas logo enviuvou. Desse casamento vieram ao mundo duas raparigas, tendo Anna [Harriett Edwards] nascido semanas após a morte do progenitor.

Leonowens construiu várias identidades ao longo da vida. Nas memórias que deixou, afirmou ter nascido em Gales no seio de uma família com cabedais e que o seu pai - "oficial do exército" - a mandara vir logo que concluída esmerada educação. Se Leonowens recebeu alguma educação foi nas escolas regimentais. Viva, curiosa e extremamente inteligente - falava fluentemente quatro línguas e chegou a ser reconhecida como autoridade em sanscritologia - era uma força da natureza. Compreende-se que, ao chegar a hora do triunfo e do reconhecimento - foi sucessivamente preceptora dos filhos de Rama IV do Sião, jornalista-viajante e conferencista, militante da causa abolicionista e no fim da vida uma líder sufragista - tentasse ocultar as suas raízes.

Casou Anna com um homem obscuro, oriundo da classe média irlandesa protestante dizimada pelas fomes de 1840. Este Leon Owens morreu prematuramente. Fora funcionáro público em Bombaim mas quis mudar de vida e candidatou-se a gerente de um modestíssimo hotel em Pinangue (Penang). Ao falecer naquela que era conhecida como a "tumba do homem branco", deixou mulher e dois filhos na maisextrema penúria. Eis uma revelação que Susan Morgan não desenvolve. Pinangue é uma ilha situada no estreito de Malaca. Pertencendo ao sultão de Kedah, foi comprada pela Honorable Company em 1786, passando a integrar as possessões dos Straits Settlements. Ali, o Capitão Francis Light, oficial da EIC lançou os caboucos de uma cidade (George Town). Pinangue era despovoada, pelo que Light trouxe da península malaia muitos "portugueses" de Kedah e Malaca. Casou com uma luso-descendente e Pinangue passou a ser mais um bandel católico das lusotopias asiáticas que floresceram nesta parte do mundo entre os séculos XVI e XIX. Parece que Anna quis apagar esse registo e essa ligação. Nascera em Bombaim no seio do enclave meia-casta católico, mudou-se para Pinangue, uma ilha de luso-descendentes antes de desembarcar em Singapura, a nova pérola da Coroa. Ora, Singapura era, também, uma cidade feita por portugueses. Quando Raffles aí se instalou e içou a Union Jack, convidou muitos luso-descendentes de Pukhet e Malaca, mas também de Pinangue. Parece que tudo bate certo, mas Anna não queria ser tida por católica, muito menos por euro-asiática.


Não se sabe exactamente como se insinuou junto do cônsul do Sião em Singapura, mas se o fez terá invocado o seu nascimento britânico, pois o lugar de professora de inglês dos filhos do Rei requeria uma dama, não uma pobre meia-casta. Compreendo, agora, as amargas, injustas e depreciativas palavras que Anna escreveu a respeito dos luso-siameses de Banguecoque. Queria varrer da memória as suas origens, não se queria com eles identificar. Era um medo profundo esse de poder ser descoberta por aqueles cujo contacto evitava; ou seja, aqueles que lhe lembravam a parte oculta da sua identidade e a sua origem mestiça.

Depois de alguns anos no Sião, mudou de ares e tornou-se uma celebridade dos salões e academias da América do Norte e Europa. Era já Madame Leonowens, rica, culta, influente, pelo que destruiu toda a documentação e inventou uma vida. Um seu sobrinho neto chegou aos píncaros da popularidade. William Henry Pratt passou à história com o nome artístico de Boris Karloff e ainda é, por antonomásia, o Drácula das fitas do cinema a preto e branco. Boris Karloff, sobrinho neto de uma pobre rapariga luso-indiana de Bombaim.
MORGAN, Susan. Bombay Anna: The Real Story and Remarkable Adventures of the King and I Governess. Los Angeles: University of California Press, 2008.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Portugueses com canhões de Waterloo fazendo guerra no Laos


Encontrei hoje relevante documentação tailandesa sobre a participação do Corpo de Artilheiros e Engenheiros Portugueses na cataclísmica guerra que os siameses moveram contra o Principado de Lan Chang (actual Laos) entre 1827 e 1828. Já tinha localizado algumas referências nas Lettres de Bangkok, do Padre Bruguière das Missions Étrangères, publicadas nos Annalles de l'Association de la Propagation de la Foi, mas documentos de arquivo do Palácio Real atestando a importância militar dos "soldados cristãos" permitem-nos dar um passo em frente na avaliação da importância que os luso-siameses tiveram nos exércitos siameses até ao terceiro quartel do século XIX. É outra página sobre a História Desconhecida dos portugueses na Ásia que se abre.
Ora, esses portugueses vivendo perto da Igreja da Conceição eram nada mais que o corpo de elite do exército. Não era, pois, nem gente sem preparação - para se ser artilheiro ou engenheiro militar é necessário saber-se matemática e balística - nem simples peões. Viviam separados da restante população, detinham foros e liberdades que os isentavam de trabalho braçal nas corveias reais e sabiam línguas (latim, português e inglês). Quando aqui vieram as primeiras missões diplomáticas britânicas, respectivamente nos reinados de Rama II e Rama III, a Grã-Bretanha dispôs-se modernizar os exércitos de Banguecoque mercê do fornecimento de armas ligeiras de fogo e, depois, peças de artilharia. O Sião foi, nas palavras do Phra Khlang (Ministro para os contactos externos) "inundado de armas pelos britânicos". Os siameses, contudo, delas não sabiam fazer uso adequado, pelo que os conselheiros britânicos investiram fortemente na formação tecnológica da minoria católica luso-siamesa. Com canhões que haviam servido Wellington em Waterloo, estes artilheiros aplicaram pela primeira vez no Sudeste Asiático a tecnologia de fogos concentrados, devastadores sobre exércitos que de tais armas não tinham, sequer, conhecimento. A guerra foi brutal. O Príncipe de Vientiane, Chao Anou, um homem de grande carisma, pensara poder unir os principados Laos e denunciar a vassalidade que o obrigava a enviar tributo anual a Banguecoque. Confiante, deixou de enviar o bunga mas aos siameses, sondou os britânicos para lhes solicitar protecção e iniciou a rebelião, invadindo território siamês, chegando às cercanias de Banguecoque. No momento derradeiro, o Corpo de Artilheiros Portugueses fulminou a investida. A retaliação siamesa foi brutal. Lan Chang foi riscada do mapa, a sua capital destruída até às fundações e a população, por inteiro, transferida para aquilo que é hoje o Issan, no leste da Tailândia.
Nessa primeira guerra moderna, coube aos portugueses a parte de leão. Integrados no Primeiro Exército Siamês no teatro de operações, forte de 85.000 homens e comandado pelo Segundo Rei, tinham por camaradas de armas outra minoria étnica cristã com sobejas provas de habilidade castrense: os japoneses católicos que haviam sobrevivido à tomada e saque de Ayuthia pelos birmaneses em 1767. Deixaram um rasto de destruição tal que, em 1880, os franceses ainda recolhiam memórias da "grande guerra" entre os anciãos laocianos. No fim, Chao Anou foi trazido cativo para Banguecoque, torturado e morto.
O importante disto reside no facto de não se tratar de acontecimentos do século XVI ou XVII. Trata-se de história contemporânea. Infelizmente, em Portugal, só se estuda a Ásia que os portugueses conheceram no tempo de Mendes Pinto e Camões. Uma pena, pois mal sabemos avaliar a importância que nestas paragens tivemos até há bem pouco tempo. A receita, então, é: investigar, investigar, investigar.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: o arquitecto misterioso

As fontes documentais escritas constituem, naturalmente, o suporte por excelência da investigação histórica. Contudo, por vezes, à conta de tanto as citarmos, acabamos por nos tornar escravos involuntários e bem intencionados de um erro. Muitas são as referências ao Consulado Português em Banguecoque, a mais antiga representação diplomática estrangeira na Tailândia, mas excassas são as descrições do edifício onde se instalou desde a década de 1820, quando o primeiro cônsul titular - Carlos Manuel da Silveira - dela fez residência. Há uma vaga descrição, datada dos anos 40 do século XIX, em Frederick Arthur Neale (Narrative of a residence at the capital of the Kingdom of Siam, with description of the manners, customs and laws (...), v. pp. 276 e 279), bem como nas memórias deixadas por missionários norte-americanos que ali perto viveram durante os primeiros anos da sua actividade de pregação bíblica. Nestas últimas, que privilegiam o aspecto humano, o acolhimento caloroso que lhes foi dispensado, as conversas de fim de tarde à sombra da frondosa figueira centenar que ali ainda existe, não há propriamente a descrição da casa, mas traços impressionistas da aguarela da memória. Há, finalmente, executada em Março de 1844 por Luís Pereira de Campos, uma planta topográfica da Feitoria Portuguesa no Sião.
Sabemos que o edifício sofreu grandes obras nas décadas de 1860 e 1870 e que as gravuras publicadas nas páginas da Revista Ocidente (1883 e 1897) apresentam-no com a traça hoje existente. Dizia Neale que o Consulado era uma construção em bambú e varas, coberto de estuque caiado, que o cônsul Marcelino da Rosa pretendera substituir o frágil edifício por outro em pedra e alvenaria, pedindo a Goa que lhe enviassem os materiais para a erecção de uma representação digna do nome de Portugal. Reza Neale que a embarcação naufragou e que se perderam os precisos materiais. Ora, olhando para a planta topográfica de Luís Pereira de Campos (1844), consultada a legenda descritiva, avultam algumas referências que contradizem a fragilidade cantada por Neale: um caminho calcetado em tijolo, que ligava o embarcadouro ao edifício principal, vasto de onze compartimentos e que havia um muro em alvenaria protegendo a feitoria. Talvez as palavras de menos apreço de Neale se referissem ao edifício da Feitoria e não à residência do cônsul, contígua mas separada. Na planta de 1844, o edifício consular apresenta os contornos da actual residência do Embaixador, provando que o mesmo já existia e que terá sido posteriormente objecto de trabalhos de melhoramento estético.

Tudo isto não passaria de um simples [e até delirante] exercício de possibilidades se , entretanto, não tivesse sido confrontado com a imagem de uma réplica exacta do actual edifício principal da nossa embaixada. A UNESCO promove anualmente desde 2000 um concurso internacional para atribuição do galardão Asia-Pacific Heritage, destinado a premiar iniciativas que visem promover e distinguir as melhores obras de preservação da herança cultural arquitectónica no espaço Ásia-Pacífico. Em 2008, a Suffolk House, casa do governador de Penang, recebeu o prémio. Foi erigida em 1805 e sofreu alterações de vulto entre 1810 e 1812, funcionando como centro administrativo - leia-se "feitoria" - e residência do representante da Companhia Britânica das Índias Orientais. Ao percorrer a exposição alusiva ao prémio, agora patente em Banguecoque, olhei para a gravura da Suffolk House e disse para comigo: "conheço este edifício de algum lado". Depois, socorrendo-me da memória visual da nossa Embaixada, acrescentei-lhe caixa em madeira e frontão dórico, retirei as colunatas da varanda do primeiro piso e enxertei na fachada largas janelas. Olhando para o piso térreo, nada tirei nem acrescentei: é, tal e qual a nossa Embaixada. Mas surgiu um pequeno problema. Na Suffolk House, projectada no primeiro piso, uma varanda parece desafiar a minha especulação. Depois, lembrei-me que na residência dos nossos embaixadores, a sala de visitas é projectada e possui todos os traços de uma outrora varanda, entretanto fechada e anexada ao espaço da casa.
Se o actual edifício da nossa Embaixada é, tal como o vemos, produto de trabalhos executados na década de 1860, por que razão mimetiza um outro edifício construído 60 anos antes ? O edifício dito "georgiano" britânico integra elementos formais de uma gramática arquitectónica que era, na década de 1860, obsoleta. Que motivo levaria os portugueses a copiar um edificio com funcionalidades tidas por ultrapassadas ? O piso térreo de ambos os edifícios integra aquilo que comunmente se designa "estilo sino-português", uma adaptação do muito glosado "estilo chão português" do século XVII, exportado para os trópicos e muito praticado no Brasil colonial e em Macau dos séculos XVIII e XIX. O "estilo georgiano" exportado pelos britânicos para o Oriente não oferece qualquer similitude com a casa apalaçada de Penang. Concluo que os dois edifícios foram construídos por um engenheiro muito impregnado pelas soluções portuguesas e que, quiçá, foram riscados pela mesma mão, um em 1805-1812, o outro no início da década de 1820. O edifício de Penang ficou tal como fora projectado; o edifício português de Banguecoque sofreu alterações de monta na segunda metade do século XIX. Pinang foi povoada por muitos católicos luso-descendetes oriundos de Malaca, Quedá (Kedha) e Sião e teve importante paróquia dirigida por padres portugueses. Ora, os padres eram, como o sabemos, arquitectos improvisados. Não será a Suffolk House um edifício concebido por um português ? E não será o edificio da nossa embaixada o verdadeiro e primitivo edifício, subsequentemente alterado ? Aqui fica o desafio para os entendidos.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O país onde os professores são venerados


São mal pagos mas venerados. Perante eles, os alunos ajoelham-se ou sentam-se a seus pés com as mãos juntas, como só o fazemos perante os altares. São os Gurús, do sânscristo Ku-rú, que os thais fixaram e modernizaram como Krú. Os professores primários e do liceu são chamados Krú, mas aos docentes universitários é reservado o tratamento de Adjaân, ou seja, guias, mestres e reveladores do conhecimento. Numa sociedade que se inspira no modelo bramânico, o krú é o eco tardio do sacerdote bramânico, casta despojada de riqueza material, acima das preocupações que movem artífices, comerciantes, soldados e administradores. Perante eles, os tailandeses assumem uma atitude reverente, não falam, ouvem e acenam afirmativamente com pequenos movimentos de cabeça. Aqui não se bate nos professores, não se insulta um professor nem há comissões de pais iracundos fazendo esperas, proferindo ameaças e justificando o fracasso dos rebentos na culpabilização de um professor. Este é, sem tirar, o paraíso daqueles que ao ensino consagraram as vidas, escolhendo nessa ocupação a pobeza voluntária compensada pelo tributo de respeito e agradecimento dos jovens aos quais consagram as vidas.
O Krú é a antítese do "colarinho branco", do "executivo" e do obcecado pelo dinheiro. No funcionalismo do Estado, o Krú tem direito a um uniforme de cor creme, a divisas, galões e medalhas, que orgulhosamente ostenta. Um professor primário é um alferes ou tenente, um professor de liceu um capitão, um assistente universitário um major, um doutor um coronel. Das mais remotas aldeias e vilas da Tailândia rural às grandes universidades da capital, envergam a farda do seu métier e é habitual vê-los, orgulhosos, passear pelas ruas ou pelos mercados entre a massa da população que, ao identificá-los, sorri agradecida.
Está em exibição nos cinemas um filme que é a exaltação do professor. Tem por título Krú Bâan Nok - o Professor da Aldeia dos Pássaros - e conta a saga de um jovem professor primário chegado aos confins da Tailândia nos anos 60. Ali chegou para ensinar a ler, escrever e contar, mas também para estimular a iniciativa colectiva, demonstrar os benefícios do saneamento básico, da limpeza e asseio dos corpos e das ruas, do exercício físico, do patriotismo e da cidadania. É um hino à heroicidade do funcionário do Estado que não busca recompensa pecuniária, que se defronta com a reserva dos poderosos e acaba por se tornar no líder da Aldeia dos Pássaros. Comovente, arrebatador, merecedor de cópia entre os portugueses.
Há dias encontrei uma velha professora universitária nos arquivos nacionais. Eu estava na companhia de um americano que ali também faz investigação. A senhora, nos seus setenta anos, perguntou-me o que ali fazia. Naturalmente, estando ela sentada, não fiquei de pé nem me sentei na cadeira vazia que ela me indicara. Vergei as pernas e coloquei-me, como o fazem os thais, num nível inferior à cabeça da professora. O americano, esse ficou de pé, com as manápulas nos bolsos e a mascar pastilha-elástica. No fim, perguntou-me: "que raio de posição a tua, até parece que lhe deves alguma coisa". A típica atitude do ocidental, que olha para os professores como pessoas que não possuem predicados para fazer dinheiro; logo refugiam-so no ensino. São dois mundos. Por mim, estou cada vez mais deste lado da civilização.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Campos de papel

Para quem já fez trabalho de investigação em História sabe do entusiasmo, das viagens e aventuras solitárias que se podem fazer dentro de casa, no silêncio do estudo. Contudo, a redacção de qualquer livrinho, por mais insignificante, envolve milhares de horas, resmas de fotocópias, centos de fichas anotadas, retocadas, corrigidas ou rasuradas de cima a baixo. Depois, há os livros comprados ou requisitados em bibliotecas, as obras de referência lidas e comentadas em glosas laterais, mais as fotos tiradas nos arquivos, os documentos em microfilme, as transcrições parciais de processos, os relatórios; um mar de papel que vai tomando conta de tudo, trepando pelas paredes, ocupando mesas, engrossando pastas. A aldeia de papel acaba por nos ocupar a casa.

Deitei-me às seis da manhã, já o sol brilhava. Foram dezoito horas de arrumação, concatenação de séries documentais, indexação e ordenamento cronológico das duas mil páginas de notas realizadas ao longo de dois anos. Foram duzentos e trinta e quatro livros, trezentos e setenta e dois documentos de arquivo, oitenta imagens e quarenta mapas. O tema que aqui me trouxe - as relações entre o Sião e Portugal (1782-1939) - queimou-me a vista. Dizia-se à boca cheia que tudo estava esgotado, que a documentação sobre o assunto fora há muito localizada. Ora, em Ciências Humanas, como em qualquer outra, não há temas esgotados. Encontrei nestes últimos meses vinte vezes mais documentação que aquela a que me habituara nos tais textos obrigatórios. Em Lisboa, em Banguecoque, em Macau e Phnom Penh, milhares de páginas aguardavam quem as lesse, as interpretasse e voltasse a dar vida.
Sei que para muitos tudo isto é coisa pequena, pois a opinião é inimiga figadal do estudo, o improviso irreconciliável adversário do método. O trabalho científico parte de suposições e corrige-se empiricamente no processo de acareação de fontes. Agora que se aproxima o início da redacção do tal livrinho que prometo para 2011, um imprevisto: descobri mais umas centenas de documentos de arquivo onde menos eseprava: na arrecadação de uma Secretaria de Estado. Retomar o trabalho, rever as incongruências, comparar notas feitas. Os campos de papel a que me submeti pedem mais trabalho !

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Portuguese in Cambodia


Among with other documentation that I was able to locate in the National Archives of Cambodia, I found the complete files of employees of the Crown and servants of the French Resident Superieur. Records with marginal notes, correspondence, requests of information, promotions and punishments, rewards and penalties express the installation of the modern bureaucracy and the transition of an Asian patrimonial State to Modern Western State. Among dozens of files identified, stood out the the mixed Portuguese-Khmer who lived in the country since the Sixteenth century, there remained influential until the arrival of Pol Pot to power. There are generations of Monteiro's, Canto's and Albergaria's occupying positions of importance in the palatine administration and provincial offices, some clerks (translators and secretaries) others military officers, diplomats and even ministers. They were well-connected men, as evidenced by the letters of reference, with direct access to the King and the French resident, but also to the high-ranking Catholic representatives and, even, solid friendships in Macau, Singapore and France. It was a minority that nothing else could do than working for the Administration. As you read more carefully the report of Sir John Bowring - British governor of Hong Kong and plenipotentiary minister to negotiate a treaty with Siam (1855) - published in 1857 (The Kingdom and People of Siam), I found references to "Protuguet" working in the Court, like their Portuguese-Khmer brothers. Among them, Pascoal Ribeiro de Albergaria, quoted by all the diplomatic missions since the 1820s. He was a general of artillery, had a long and prosperous career, and everything indicates he was also master of court ceremonies. His body was buried in a Catholic cemetery in Bangkok located in Ban called Khmer (Khmer village). I asked one of his descendants, now senior officer working for Thai Foreign Office if he knew something about of his illustrious ancestor, but he gave me no satisfactory answer. By late afternoon yesterday, when I got home, I had a strange intuition, of those who violate the laws of rationality. If Albergaria's tomb is near Ban Khmer - might have something to do with the Khmer Portuguese came to Bangkok in one of the three waves of fleeing Cambodians arrived here between the late Eighteenth and early Nineteenth century. However, by chance, in the writings of a British diplomat who came to Bangkok in the 1820s, I found the link: Albergaria was descendant from Cambodians and his family established in Oudong - and then Phnom Penh - since end of 17th Century. He was grandson of a Portuguese man and a Anglo-Malaysian "half caste" lady named Lister, converted by marriage to the Catholic faith. The British envoys, always schown hight respect for him. Was said to be a handsome, highly intelligent and communicative person, much appreciated by the Siamese king and high ranked siamese officials under Rama III and Rama IV reigns. Pascoal was able to speak Siamese, Khmer, English, Portuguese and Latin languages, qualifications that provided him with an indispensable place in contacts with traders and diplomats who visited the kingdom. Next time when I visit his descendants, will bring them the good news. Now, in addition to Siamese and Portuguese ancestors, they will know that are also partially English and Khmer. The Albergarias were not the kind of adventurous "Portuguese in the wild" nor "people of bandel" those semi-literate and rude but fascinating men who settled a bit everywhere from India to Timor. These were literate and, by family name, belong to a small Portuguese nobility that left Europe in search of a new life.

domingo, 20 de dezembro de 2009

The enigmatic flag of Mindon


I had seen the flag played in old British prints of the Nineteenth Century, but I confess do not have aroused curiosity, thinking to lag behind the creative freedom of illustrators. Some days ago I have found it in a book of memories of the last British military campaign in northern Burma (1885) : a picuture of banners captured in the days before the fall of Mandalay, the last home of the Konbaung dynasty. There is it, the enigmatic flag, on the floor with other trophies: a black cross on a red field.

That was certainly not the flag of the kings of the dynasty, but a military standard. Could have only to do with the existence of Christians in the ranks of Mindon's and Thibaw's armies. Today, while browsing the best website dedicated to vexicology, found it with the following footnote: "The flag shown here is the banner of the royal gunners, who were mainly Christian Portuguese descendants." Then simply compare it with the flag of the Franciscan Order and there was no confusion: the same symbol. As the Franciscans were the first Portuguese to settle in Burma (1600), that flag was, (could only be) wielded by Portuguese Catholics. The portuguese-burmese gunners and sappers had long and respected career under Taungoo and Konbaung dynasties and fought against the Siamese, the Malay, the French and the Dutch, to be ravaged by the British armies. In the final days of Mandalay, they were the last defense against the military expedition led by General Prendergast. A puzzle ist to be doing, piece by piece. It is fascinating to watch the progressive definition of the name of Portugal emerging from the puzzle of research. Everything has to do with everything. There is no Siamese record, an ornament, a picture or a simple iconographic detail from Cambodian, Burmese or Malay ducuments which are not related to the presence of Portugal in Southeast Asia. Portugal was still in the Nineteenth century knocking on the door of the Twentieth century, the great reference in this vast region between India and the Middle Kingdom.

domingo, 22 de novembro de 2009

Incêndio na Siam Society

Ontem estive todo o dia deprimido. Pela televisão recebi a tremenda notícia: o edifício da Siam Society fora tragado por um incêndio devastador. Ao longo dos últimos dois anos, a Siam Society foi uma segunda casa. Ali passei milhares de horas naquela que é uma das melhores bibliotecas especializadas em bibliografia e documentação sobre o Sudeste-Asiático e recebi sempre dos funcionários e dirigentes um caloroso acolhimento e apoio. Para minha casa trazia todas as semanas uma ou duas obras requisitadas, livros raros, comprados um pouco por todo o mundo - em espanhol, francês, inglês, italiano, alemão e até português - por esse grupo de animadores e entusiastas do património histórico e cultural siamês que tem mantido a Siam Society desde 1905. A história cultural contemporânea do país cruza-se com a instituição. Ali passaram ao longo de um século os mais autorizados investigadores estrangeiros, ali se reuniram, realizaram palestras e escreveram obra os mais influentes homens de cultura da Tailândia. De repente, num ápice, um fogo propagou-se e ameaçou de morte tanto labor e dedicação.
Recomposto, liguei a uma das dirigentes e ofereci os meus modestos préstimos. Como sou bibliotecário, talvez precisassem do meu contributo. Disseram-me que por lá passasse hoje após o almoço. Fui encontrar o belo edifício ainda fumegante, telhados contorcidos, paredes desfeitas e o jardim transformado num lodaçal pelas mangueiras dos bombeiros. Perante o desastre, revelou-se-me, uma vez mais, a nobreza dos thais. Os funcionários da Siam Society transformaram um alpendre em escritório e ali estavam registando telefonemas, recebendo obras requisitadas, informando os sócios e listando donativos. Esta gente tem um grande coração e uma enorme capacidade para fazer frente a desafios como este. Julgo que é em momentos de adversidade que as pessoas se revelam. Não vi pieguices nem lágrimas. Rostos compenetrados e sérios, palavras mansas mas decididas, projectos por realizar, ideias para o futuro, foi tudo quanto vi e ouvi nesta visita fúnebre aos despojos da Siam Society. Perdeu-se a livraria, os escritórios e toda a documentação ardeu, mais computadores, impressoras, mobiliário, bases de dados, a revista que aguardava lançamento, pinturas e esculturas.
Felizmente, a grande biblioteca, mais a mapoteca, os manuscritos e a hemeroteca sofreram danos leves. O fogo, irracional e caprichoso, escolheu coisas menores. Um frio de regelar, húmido e pestífero das cinzas flutuantes, invade a biblioteca. Sobre milhares de obras caiu um pó negro como um crepe sobre um cadáver. Aquilo que demorou cem anos a fazer quase morreu em vinte minutos. Lembro os dias felizes que ali passei, no conforto da bela sala de leitura, lembro a brilhante conferência que o Professor Vasconcelos de Saldanha ali proferiu em Março passado, o calor dos aplausos e o entusiasmo por ali ressoar o nome da velha aliança que une desde 1511 Portugal ao Sião.
Portugal poderia, na medida das suas possibilidades, oferecer-se para engrossar o número de países e instituições que já exibiram consternação pelo trágico evento. Por mim, estou disposto a trabalhar graciosamente em qualquer projecto.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

The Portuguese minority in Siam


Ayutthaya
1756: Wartime
“Some regiments, entirely composed by Christians, were ordered to guard and defend the bastions of Ayutthaya”.

“In several attempts the Burmese tried to take the village of San Jose, but were repelled by Christians who, in the words of the mandarins, contrasted with the timidity of the other Siamese troops”.

“Among the Christians, some guarded the bastions, others were gunners of the thirty pieces of artillery that protected the capital”.
(Launay, Adrien. Siam et les missionnaires français)

1766: Flock unloved by their shepherds
“Les portugais se refugierent dans ce royaume, lorsque les Hollandais les chasserent de Malaca. Leur pauvreté est extrême, parce quils y vivent dans la pareses & dans la debauche”.
(Abbé de Fontenai. Le voyager François oú la connoissance de l’ancien et du Noveau Monde)

1767: Teaching the art of war to merchants
Werndlij, the foreman of the Dutch VOC hired ten Siamese-Christians and asked them to fortify the Dutch factory and taught [him] to carry and use firearms.
(VOC Archives)

Phuket = Junk Ceylon
1779. Lingua franca
“The Catholic missionaries withdrew from Siam in late 1779. Joseph Coudé resided for some time in Junsalão*, where he met many Christians who welcomed them with joy. I suppose most of these are mixed to the Portuguese".
(Gerini, G.E. Historical retrospect of Junkceylon Island)
* When Captain James Forrest visited Phuket in 1784, was received by Governor of the island (Phraya Phimon) and the local interpreter was a Christian who was able to speak Portuguese language.

Bangkok
1820’s: mobility of the Siamese-Portuguese Catholics.
“[The Annamese inspector] came with an old Portuguese named Joaquim, which was born in Lisbon but never returned to Europe since forty years. He married to a Siamese woman and stated that [Siam] was his own country”.
(White, John (1782-1840). A voyage to Cochinchina)

1822. British diplomats monitored by the Siamese-Portuguese
“Early in the morning, a man dressed like a European sailor arrived saying that was sent from Bangkok to serve as a translator and accompany us to the capital. This man was such a degraded self-estimated but important class of society known in India under the name of The Portuguese, a title that could be played by any negro, any native or half-caste who dress one or two articles of European clothing”.“Our visitor bore all the characteristics of the Siamese, among whom were born. He spoke Portuguese fluently, but an imperfect English. He demanded, on behalf of the Governor of Paknam, that the guns should be landed. Was told him that the Portuguese frigate that preceded not landed its guns. He answered that this happened due to special indulgence of the Court”
(Finlayson. George. Thi Mission to Siam, and Hué the capital of Cochinchina in the years 1821-2)

1824-1911: The Tha Chang Portuguese Volunteers Corps
“During the reign of Rama III, the descendants of the Portuguese garrisoned the Tha Chang Habor. One of the Volunteers called Keo Libeiro (=Ribeiro) was appointed by his majesty commander of the artillery and granted with the title of Phrya Visesonkram Ramabhakdi.”
(Bunchua Kirti. The Catholic minority in Thailand: an example of coexistence)

1832-1833. Black Legend: thieves, but working for the King!
“The Christians inhabit a portion of the town near the factory called Santa Cruz, the greater part of which was burned to the ground a short time before my arrival. (…) They are despised both by the Europeans and the Natives, and certainly not without cause for they do not credit to any country which might own them. How the majority of these people can try to live, is impossible to say, but appearances are strongly against the supposition that they earn a subsistence by honest occupation”.“Their communication with Europeans has allowed them to acquire a more extensive degree ok knowledge than the natives, and some of them consequently employed as interpreters and pilots, the captain of the port also belonging to this class”.

“They are to said to be complete adepts to pig-stealing, so much so, that a grunter can be whipped up and carried off without the least noise, and even without the animal itself being perfectly aware of the circumstance”.
(Earl, George. The Eastern Seas or Voyages and Adventures in the Indian Archipelago in 1832-33-34).

1830-18--. Vietnamese Catholics in Conception
“Vietnamese Catholics adapted to life in Siam in a different way that adopted by other immigrant Vietnamese Buddhists. Until recently did not allow their children to get marry to non-Vietnamese.”
(Pool, Peter. The Vietnamese in Thailand: a historical perspective)


1837. Racial and anti-Catholic prejudices
“Many of these are descendants of Portuguese who lived with native woman, and some few are converts in Buddhism. In civil condition they are bellow the Siamese. No part of the population of Bangkok is more degraded. Their children are not taught; their manners are not improved; their knowledge of Christianity is very small (...) and they are neither industrious, cleanly, nor moral.”
(Malcolm, Howard. Travels in South-eastern Asia: embracing Hindustan, Malaya, Siam and China).
Howard Malcolm, 1799-1879. Baptist minister, founder of the American Peace Society, has been sent by the American Baptist Foreign Missionary Union to Burma, China, India and Siam.


1839. Receiving an envoy of the government of British India
“At 4 am halted at the British factory on the side of the river opposite the fort and city of Bangkok and found Piedade, the port Captain, Benedito (=Bento) (who has received from the King the title of Peavisit) commandant of artillery, and Pascal (=Pascoal), all native Christian Portuguese, waiting my arrival at the mat house (...)”.

“In a few minutes we crossed the river, and passing up beyound the landing place used by the king, landed near some large sheds, where we found Piedade and several other native Christians, officers of the Siamese army, dressed in their embroidered uniforms with gold epaulets etc, waiting for us. Benedito had a spare cocked hat, with tawdry embroidery and some rubies of small value stuck about it, carried before him on a thing like a barber’s wig block.”
(Farrington, Anthony (ed). Dr. Richardson’s missions to Siam)
1840-1849: Conflicts between the Christians and the French clergy
“The missionaries on our side were art warfare with those on opposite bank [Assumption] regarding certain points of Church doctrine, but as they were all supported by one society [Missions Étrangères] they were compelled to have a board meeting once a month, to draw up reports and send in their drafts for monthly pay: here violent controversies would ensue, which generally ended in a flood of tears and a hugging all round”.
(Neale, Frederick Arthur. Narrative of a Residence in Siam.)

1855: Portuguese-Siamese as Phrai Luang

“Many of the Christian communities live apart from the Siamese, in Campongs, or camps. They give their three months of service yearly to the King, or pay regular commutation, and are not molested in other matters (…).”
(Bowring. John. The Kingdom and People of Siam; with a narrative of the Mission to that Country in 1855).

A Portuguese as representative of the Phra Khlang
“The officer charged with the superintendence of the Christians races in Bangkok informed me that their number was between three and four thousand; and this statement was confirmed to me by the Catholic missionaries.They are mostly composed of the descendants by native woman, of Portuguese settlers who, from the days of their ancient Oriental glories, have been from time to time poured out upon the various countries of the East. Few of these mixed races have retained the language of their fore-fathers; of those who are still able to speak Portuguese with tolerable correctness, several were retained for my service by the Court. (...) We were welcomed at Paknam by a functionary of Portuguese blood, clad in a European Court dress, which he said had been presented to him by Sir James Brooke. (…) His name was Alvergarias (=Albergaria). At Paklat he was the master of the ceremonies”.
(Bowring. John. The Kingdom and People of Siam; with a narrative of the Mission to that Country in 1855).


1863. Francis Chitrakani, a Catholic from Thonburi, the first professional photographer in Siam
“Photographs of Chulalongkorn as teenager, and probably also those of his first coronation ceremony in November 1868, were the work of Siam’s first commercial photographer, Chit Chitrakani (1830-1892). Under his Christian name, Francis Chit, he had established in 1863 a photographic studio on a floating house near the St. Cruz church, in Thonburi. (...) He was eventually granted the title of Luang Akhani Narumit for his services to the royal household.”
(Pellegi, Maurizio. Lords of Things: the fashioning of the Siamese monarchy’s modern image)
1860-1870: Adaptation to new times
Siamese Revenue Service. Costume House Department: S. Bateman (Commissioner) and JMF da Costa (Inspector)*”.
*Son of José Maria Fidelis da Costa, born in Goa, and Ana Rosa Braga da Costa, born in Macao, José Maria Fidélis da Costa Jr. Born in Bangkok.

Rice Department: Rice Office and Export Office. Rice Inspector: José Maria Fidelis da Costa (Inspector) and Mr. F. Ribero (=Ribeiro).

Bangkok Police Department. S. J. Arnes (Comissioner) and Mr. R.A. António (Interpreter)”

Merchants and Agents in Bangkok:
J.S. Parker (established in 1856). P.A. da Costa* (Assistant)*Family from Goa and Macao established in BangkokAgency of Russel and Co. (established in 1857). D.O. Clark and G: Moor*, JF Machado (Assistants).
* From Macao and relative to the Portuguese Consul.

D’Almeida & Co. Comission Agents (established in 1857). António d’Almeida and Abraham Velge (partners). Branche House: Singapore

William Anthom and Co. (established in 1857). F. Xavier* (Assistant)
* Macanese family stablished in Bangkok. His grandfather came to Bangkok and worked as Secretary of Consul Carlos Manuel da Silveira and his father was Luis M. Xavier, made Khun Pasa Pariwatta during King Rama III’s reign.

Pickenpack* Thies and Co (established in 1858). M. C. Cordeiro
* German entrepreneur; further Consul of North German League

JMF da Costa (established in 1870): Comission Agent and Wine Import. Assistants: D. Xavier; Kim See Eng.

Windsor, Redlich & Co. (established in 1871): Agent for the Chinese Insurance Co. Limited. Assistants: FM de Jesus*, LM Cordeiro**
*Filomeno Manuel de Jesus, born in Macao
** Ludovico Miguel Cordeiro: born in Bangkok from macanese family
A. Markland Co’s Steam Rice Mill. B. Simoens (= Simões) (Assistant and Engineer)

1888. Portuguese officials under Rama V
“The gentleman who served as interpreter at the meeting with the Minister of Foreign Affairs is Mr. Honorato de Sá, one of the most worthy and intelligent sons of Macao. This not the only Portuguese in the service of His Majesty and unfortunately the English compete with them to places for officials in this country. Nevertheless, the following Portuguese still in the service of the Siamese government: AF da Costa, in the Ministry of Foreign Affairs, AJF da Luz, in the same Ministry, A. de Sousa, commander, BP Simões, interpreter in the International Bureau, FM de Jesus, police inspector at the Paknam, JJ Arozo, in the the Central Office, JMF da Costa, Inspector General of Customs, JMF da Costa, Attaché of the siamese representation in Japan”.
(Silva. J. Gomes da. Viagem a Siam)