quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A "questão dos sapatos"

O tema mantém plena actualidade. Em 1885, a pretexto do fincapé birmanês na estrita observância da etiqueta existente na corte de Ava /Mandalay - que obrigava os visitantes a retirar os sapatos à entrada da sala do trono, bem como o de não se apresentarem perante o Rei de chapéu e exibindo armas - os britânicos encontraram um casus belli para declaração de guerra, invasão e anexação do que sobrara do outrora poderoso reino da Birmânia.

As razões invocadas, atiçadas e servindo o declarado interesse da câmara do comércio britânico em Rangun (a outrora capital da Birmânia, ocupada no decurso da segunda guerra anglo-birmanesa, em 1852), epitomizam o desprezo dos ocidentais por tradições consideradas "bárbaras", mas mostram a que ponto a actividade diplomática é bifronte. A campanha anti-birmanesa começou na imprensa londrina, espalhou-se pelos jornais em língua inglesa do Raj, ecoou na Câmara dos Comuns e serviu de lançamento de Randolph Churchill (pai de Winston) para uma brilhante como rápida carreira política.
As acusações feitas aos birmaneses incidiram inicialmente sobre a "criminosa natureza do despotismo birmanês", dos defeitos e crueldade de carácter do Rei Tibhaw - um "criminoso" que era, afinal, um homem de cultura absorvida ao longo de sete anos num templo budista - das práticas selvagens de eliminação de adversários, do carácter pérfido das suas consortes, do ambiente de orgia do harém real. Era, o que se pode chamar, atiçar a canalha londrina e criar atmosfera que permitisse uma guerra popular.
Depois, subitamente, saído do nada, surgiu nos escapartes uma obra de Archibald Colquhoun intitulada "Burma and the burmans: the best unopened market in the world", depressa um êxito editorial pedindo consecutivas reimpressões. Meses volvidos, novas revelações fantásticas sobre a aquisição de armas feitas pelois birmaneses aos franceses - que concorriam com os britânicos do Sudeste-Asiático na abertura de uma fronteira económica com a China - e que essas poderosas armas poderiam cobrar a vida a milhares de mancebos britânicos, caso surgisse uma guerra.
A verdade é que a Birmânia se estava a modernizar e industrializar, que o Estado se estava a adaptar ao regime europeu de tributação, que a fiscalização sobre a actividade ilegal de madeireiros e garimpeiros britânicos encontrava crescentes obstáculos e que as exportações de arroz britânico para Mandalay iam declinando na proporção do crescimento da produção agrícola birmanesa, em acelerada fase de industrialização. Os madeireinos e os garimpeiros pagaram a jornalistas, pagaram a príncipes birmaneses exilados em Calcutá para entrevistas insultuosas ao Rei Tibhaw, fizeram lóbi nos Comuns e cobriram o Vice-Rei da Índia de prendas e abaixo-assinados; em suma, nada de novo, pois já o lóbi do narcotráfico havia feito o mesmo quarenta anos antes para encontrar desculpas para desencadear a "abertura do mercado chinês", naquela que ficou conhecida como a Primeira Guerra do Ópio.
Quando o caldo emocional estava preparado, o Vice-Rei da Índia enviou um Ultimato absolutamente inaceitável aos governo birmanês, exigindo coisas tão absurdas - sabendo de antemão que seriam tidas como impraticáveis - como a de um pedido pessoal de desculpas do Rei birmanês aos enviados britânicos, desculpas que teriam de ser feitas a bordo de um navio inglês, a exigência que os britânicos não se submeteriam a qualquer "prática humilhante" (retirar os sapatos) e que o Rei birmanês deveria punir os funcionários que se habviam limitado a aplicar as leis do país no combate aos especuladores madeireiros e garimpeiros.
O Rei não aceitou, obviamente. Ao expirar o prazo do Ultimato, dez mil soldados britânicos entraram em território da Birmânia do Norte, varreram sem dificuldade as débeis defesas do país, ocuparam a capital e deram "dez minutos, nem mais um" ao Rei para que entrasse numa carroça de bois. O Rei seguiu para o exílio na Índia britânica, os tesouros do palácio foram pilhados pela soldadagem britânica - um dos grandes tesouros do Sudeste-Asiático - e os madeireiros e garimpeiros apossaram-se de terras e minas do território. Em suma, há sempre que encontrar uma "questão de sapatos" para lançar guerras justas ao serviço dos plutocratas.
Começo a compreender o terror que aos birmaneses inspira a intromissão dos ocidentais nos seus assuntos internos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Ano novo lunar com superstição e sabor português / เทศกาลตรุษจีนที่กรุงเทพมหานคร


Até 1932, quando aqui eclodiu a revolução constitucional, os tailandeses regiam-se por quatro calendários: o da era budista, o da era cristã, o ano lunar chinês e reinado do monarca em exercício. Hoje, limitam-se a contar o tempo pelo passamento do Iluminado (2552), pelo ano chinês e pela era cristã (2009).
Os últimos dias têm sido de festa pela entrada do ano do boi. A comunidade chinesa, já muito assimilada, faz os possíveis para manter a tradição, mas dizem-me os mais velhos que dentro de duas gerações pouco restará, porquanto os mais novos, totalmente desinteressados das suas raízes ancestrais, se limitam a festejar pelo prazer de quebrar a normalidade, como o fazem com o dia dos namorados, o Natal e outras festividades onde a dimensão comercial parece dominar.

Como manda o costume, fui a uma cartomante pedir contas ao futuro. A cartomante disse-me o que queria ouvir, pintalgou-o com romance, dinheiro, saúde e sucesso. Perguntei-lhe tudo o que queria. A pequena deusa com ares de procuradora do destino, asseverou-me que seria um ano cheio de dinheiro, boas notícias, uma viagem longa e um inesperado convite. Convite para quê ? Ahhhh, não sei, um convite. Pois, a viagem sei que a farei para visitar a família e o convite poderá limitar-se a um café pago por um amigo. Já não tenho ambições. Se me dissesse que me convidariam para ministro, fugia já para o Camboja ou para o Butão, recolhia-me a um templo e esperaria que se dissipasse o mau agoiro.
A grande manobradora em plena perscrutação do meu futuro. Acertou em tudo, não acertou em nada, pois tudo está por acontecer.
A conjugação do tarot. Poucos problemas, com a justiça e o imperador a velarem pela minha pálida estrela de exilado voluntário.

Para me libertar das estrelas e da sorte, acabei o dia a comer um frango à piri-piri num restaurante perto de minha casa, propriedade de um chinês de Hong Kong que abriu uma cadeia de comida portuguesa pela Ásia. Para mim acabou, finalmente, a festa do boi. Amanhã volto a referir-me ao ano em curso como 2009 ou, para os thais, 2552.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Os portugueses exterminados por Pol Pot / คนโปรตุเกสในประเทศกัมภูชา

Um antropólogo francês, muito versado nas coisas do Camboja, informou-me como quem debita uma estatística, já não haver portugueses no Camboja. Nas suas andanças pelo país indagou, falou com os mais idosos das vilas das cercanias da capital, foi a Sianoukville (outrora Kampong Som) - único grande porto de mar do Camboja, onde outrora vivera numerosa comunidade católica - entrevistou sacerdotes católicos e nada; não há vestígios da comunidade portuguesa cambojana, tragada pelo vórtice genocida do regime comunista de Pol Pot.
Quando o aventureiro e explorador alemão Adolf Bastian esteve no Camboja na década de 1860, a comunidade católica era constituída quase integralmente por "portugueses". "Muitos dos cristãos são de ascendência portuguesa. O actual rei do Camboja [Norodom I] atribui parte da sua educação ao bispo católico [Monsenhor Michè]. (...) Os cristãos constituem a guarda de honra do Rei, que gosta de os observar enquanto fazem exercícios de fogo com artilharia pesada"(1).
Bastian seguira as pisadas de Henry Mouhot, um anglo-francês que anos antes se internara no Camboja vindo do Sião e morrera com as febres endémicas que dominavam a inóspita geografia do país. O Camboja era então um vassalo de Banguecoque, mas mantinha adereços de autonomia. O Rei mantinha corte, administração e exército. No exército e administração pontificavam os "portugueses": "muito imitativos (...) sentem orgulho em vestir-se com trajos europeus, alguns fatos segundo a moda do século XVII, especialmente entre os descendentes dos portugueses, que são numerosos" (2).
Artilheiros, intérpretes, guardas reais e remadores das barcas do Rei, proximidade atestando a grande confiança que neles depositavam - no Sudeste-Asiático, os reis eram figuras semi-divinas que nem de soslaio podiam ser olhadas - a comunidade "portuguesa" prosperou durante séculos, deixando marcas profundas na vida da corte. A comunidade católica portuguesa não era, contudo, uma relíquia blindada na recordação de grandes dias, nem sobrevivera graças a matrimónios endogâmicos. Ainda no século XIX, portugueses continuavam a chegar à capital. O mais famoso destes recém-chegados foi Kol de Monteiro (1839-1908). Prosperou, ganhou os favores do Rei e foi conselheiro real. O seu filho, Pitou de Monteiro, foi conselheiro dos ministros da Justiça e da Educação e um neto seu, Kenthao de Monteiro, educado em França, foi vice-presidente da Assembleia Nacional, Ministro da Educação e diplomata de reconhecido mérito, tendo ocupado funções de embaixador do Camboja na Jugoslávia, Taiwan e Egipto e recebido as mais altas condecorações por serviços prestados, a mais relevante das quais a de Cavaleiro da Legião de Honra, atribuída por De Gaulle durante a visita oficial do presidente francês ao Camboja. Morreu nos EUA, em 2006.
Hoje, tal como na Tailândia, a doçaria mais requintada é ainda a portuguesa. Os Samanah Meas, servidos no fim de repastos, não mais são que os nossos fios de ovos, figuram nos tratados gastronómicos da cultura cortesã khmer e são tidos como "doce nacional". Nos anos de 1950, a princesa Rasami Suthanot, tia do Rei Sianouk, compendiou velhas receitas cambojanas e considerou os "fios de ovos" a quinta-essência do bom gosto gastronómico. Outra marca da influência dos "portugueses" é língua. A moeda nacional do Camboja, o Riel, não é outra senão o nosso velho e desaparecido Real.
Em finais da década de 1950, o Camboja conseguira libertar-se da tutela francesa e ensaiava os primeiros passos na turbulenta política regional, já marcada pela investida comunista no Vietname. Nesses anos, privados do corpo administrativo colonial francês, as autoridades de Phenom Phen tiveram de recorrer às minorias étnicas mais operativas: os chineses, admirados e invejdos pelos seus talentos e riqueza; os sino-cambojanos, produto da miscegenação khmer-chinesa; os vietnamitas, muito odiados pela população e os euro-asiáticos. "Os euroasiáticos eram descendentes dos portugueses chegados ao Camboja no século XVII (...). Perderam desde então todos os traços fisiognómicos europeus, mas retêm os apelidos (...) portugueses: Men de Dias, Col de Monteiro, Norodom Fernandes. Possuem ainda influência na administração cambojana" (3). O rei Norodom Sihanouk, pai do actual monarca, teve como mimistros alguns portugueses, entre eles destacando-se membros da família De Monteiro, cujos sobreviventes se fixaram na Austrália após a tomada do poder pelos Khmeres Vermelhos.
Em 1975 - que foi ano de desgraça para todas as lusotopias, de Angola à Guiné, de Moçambique a Timor e também no Camboja - Phenom Pehn caíu nas mãos de Pol Pot e do Angka, designação pública para o invisível e misterioso Partido Comunista do Camboja. Depois, foram quatro anos de massacres e limpeza étnica de todos os "elementos impuros" da sociedade. Dois milhões de mortos - uma em cada quatro pessoas - e a imposição da Utopia agrária: evacuação das cidades, proibição do dinheiro, abolição da escola e da medicina ocidentais, bem como dos "bacilos" do colonialismo. A Igreja católica e o Islão - os Cham malaios, cuja população era maioritariamente urbana, logo mais exposta aos verdugos comunistas - foram objecto de particular animosidade, deles restando hoje poucos vestígios. Os templos foram dinamitados, os arquivos queimados, os sacerdotes sumariamente executados e os crentes distribuídos pelos campos de morte. Dos sessenta e cinco mil católicos que viviam no Camboja em 1975, menos de mil sobreviveram à fúria assassina dos comunistas. Quando o antropólogo francês me referiu o fim destes nossos irmãos - os Dias, os Silvas, os Pereiras e Fernandes de Phenom Phen - fui acometido de uma sensação de perda. Eles eram também, à sua maneira, nossos compatriotas, dizimados, afogados ou mortos à fome por serem diferentes, por serem cristãos, ou seja, por serem portugueses.
Alimento a derradeira esperança que alguns destes outrora milhares tenham sobrevivido. Talvez a Igreja portuguesa, o MNE e alguma fundação se pudessem associar e enviar uma missão de estudo ao Camboja, pedir a colaboração do governo desse país e proporcionar a esses nossos irmãos a ajuda necessária à restauração da dignidade social e cultural perdidas. Seria uma grande obra de restauração da presença indirecta de Portugal num país que renasce de uma das maiores tragédias do século XX. Lembrando Frei Gaspar da Cruz e Diogo do Couto, que à Europa deram em primeira mão notícia das grandezas da civilização khmer, aqui fica o recado para quem o quiser receber.

Sítio Internet da Igreja Católica do Camboja.
(1) BASTIAN, Adolf. A journey in Cambodia and Cochin-China (1864): Adolf Bastian's travels in South East Asia. Bangkok: White Lotus Press, 2005, vol. 3
(2) MOUHOT, Henry. Voyage dans les royaumes de Siam, de Cambodge, de Laos et autres parties centrales de l'Indochine. Londres: sn, 1863
(3) STEINBERG, David J. Camboja, its people, its society, its culture. New Haven: Hraf Press, 1959

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Comer na Chinatown de Banguecoque

Fazem-se já grandes preparativos para o ano novo lunar chinês, que ocorrerá este ano no próximo dia 25. Resolvi, pois, na companhia de um amigo chegado de Portugal, ir a Yaowarat (เยาวราช) bairro chinês de Banguecoque e lugar de peregrinação para os apreciadores de gastronomia sino-tailandesa. Como o movimento não cessa até às cinco da manhã, há quem ali também vá adqurir chá e fruta em lojas pertencentes à poderosa minoria chinesa. O bairro existe desde o século XIX e os chineses, mesmo que bem integrados nesta sociedade - que sempre foi multiétnica e multicultural - persistem em dar uma ambiência vincadamente chinesa às ruas, com o característico formigueiro da actividade, as incessantes cargas e descargas e, claro, o gosto pela comida. Dir-se-ia, em Yaowarat, que a China, com a sua persistente e vincada identidade, possuiu o exclusivo de se reproduzir fora do seu berço com tal naturalidade que parece assim ter sido sempre. Contudo, os chineses nem sempre foram bem recebidos neste país. Até aos anos 50, o chinês era um súbdito olhado de soslaio, um invasor cultural com tal desenvoltura que despertou apreensão de gerações de governantes. No início do século XX, tantos eram os chineses em Banguecoque que se suspendeu a abertura do regime autocrático e a sua inevitável evolução para um sistema representativo por medo da influência eleitoral que tal minoria poderia deter numa câmara de deputados. Nos anos 30, finalmente nacionalizados, aculturados e assimilados, os chineses diluíram-se no corpo social e converteram-se em leais cidadãos, ocupando hoje relevantes posições na vida económica e financeira, académica, cultural e política do país.
O jantar começou com um Kra-praw-pla, uma deliciosa sopa de estômago de peixe, com cogumelos chineses e caranguejo moído.

Seguiu-se um ped-yang, pato assado à moda chinesa, com gengibre, nabo chinês e molho de soja.
Como a fome apertava, veio um koy-jo, um bolo de caranguejo frito, servido com vegetais e molho agridoce. Para terminar, uma sobremesa ligeira, sem açúcar: o tao-huy-yen, gelatina de soja verde coberta de pêssegos e ananás. O acompanhamento foi feito com chá verde frio. Feitas as contas, pagámos 440 Bath, ou seja, 10 Euro.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Estes estrangeiros que fizeram a Tailândia / ฝรั่งผู้นี้ได้ทำคุณประโยชน์ทางด้านศิลปะให้กับคนไทยและประเทศไทยเป็นอย่างมาก

Quanto mais progrido nos estudos thais, maiores as surpresas que se me vão deparando. A construção do Estado Moderno no Sudeste-Asiático data de meados do século XIX. Aqueles elementos definidores que a ciência política comumente aponta - população, território e soberania - mais as instituições que efectivam o exercício do poder (tribunais, forças armadas e policiais, burocracia) já qui existiam no quadro da Mandala siamesa (a monarquia "clássica e patrimonial) mas foi grande a engenharia de legitimação (interna como externa) que possibilitou o reconhecimento do Estado como entidade dotada de um passado e actualidade que tornassem possível a sua aceitação pela comunidade internacional e pela população ocupando o território. Aqui como na Europa Oitocentista, a construção da cidadania fez-se mais pela intepretação historiográfica, pela decantação do "espírito nacional" e suas realizações espirituais, literárias e arquitectónicas, que pelos elementos formais externos que a definem.
Já aqui havíamos falado dessa
plêiade de italianos expatriados aos quais coube a incumbência de fazer a mise en scène da monarquia absoluta sob os reinados de Rama V (1868-1910) e Rama VI (1911-1925). Nesse notável grupo de latinos contratados pelos reis destacou-se Corrado Ferocci (1892-1962), que chegou ao Sião em 1923. Coube-lhe descobrir e estudar as belas artes siamesas e interpretá-las à luz da História da Arte. No processo de modernização e ocidentalização que decorria, a xenomania permitiu a destruição de um património milenar, tido como escolho ao progresso. As artes tradicioais - o muralismo, a escultura sacra, a ourivesaria e a joalharia, a lacaria - haviam deixado de interessar, as encomendas da corte cessaram e os ofícios e seus mestres, morrendo por falta de estímulo, procuraram outras actividades. Qualquer cadeirão, peça ou pano, castiçal de gosto duvidoso, tapeçaria ou espelho vindo da Europa era disputado pelas famílias da aristocracia de sangue ou pela alta burocracia como marcas de civilização dos seus possuídores. Tudo se copiou. O Sião autocolonizava-se a partir do modelo europeu e a identidade - o fundamento da diferença e da liberdade de uma comunidade - ia-se apagando.
Na vigésima quinta hora, o Rei Rama VI - formado na Europa e muito impressionado com a teorização nacionalista - lançou um vasto programa educativo visando estancar a perda de identidade, fixar o carácter thai e reintroduzir práticas culturais em desuso. Assim, preservou o teatro e a dança tradicionais, reintroduziu as procissões das barcas reais, salvou da desaparição a literatura oral, defendeu a música e instrumentos ameaçados pela adopção da música ocidental, fundou os Arquivos e a Biblioteca Nacional e lançou um programa de conservação e restauro dos monumentos que, por falta de uso, haviam sido devorados pela floresta ou transformados em simples pedreiras. Para completar a restauração artística e cultural, convidou Ferocci para aplicar no Sião o modelo das escolas de belas artes europeias, com a dupla consigna da preservação da memória e estímulo à criatividade no quadro da cultura do seu tempo.

Pelo Sião ficou Ferocci durante três décadas, fazendo trabalho de valências múltiplas, ora como arquitecto de monumentos públicos - Monumento à Democracia: Anusawari Pracha-Athipathai = Monumento à soberania nacional, 1939-40; Monumento à Vitória / Anusawari Chai Samoraphum, 1942) - ora dedicando-se à investigação e publicação de extensos relatórios sobre o património artístico. Em 1943, com avultados meios proporcionados pelo governo fascista tailandês, criou a Universidade das Belas Artes de Silpakorn. Por esta altura, já falava, lia e escrevia correctamente o thai, pelo que se havia transformado num homem da terra. Rodeado de grande corte de admiradores, Ferocci tornou-se cidadão tailandês e passou a chamar-se Sin Phirasri (ศิลป์ พีระศรี). Ao regressar a Itália, no ocaso de uma vida plena, o Estado Tailandês tributou-lhe as maiores condecorações e honrarias. É hoje venerado pelos milhares de alunos da Universidade que fundou e até tem direito a efígie nos selos postais e moedas comemorativas. Todos os dias, pela manhã, aos pés da sua estátua são depostas flores e doces e do seu dedo pende um fio de algodão, símbolo da pureza longeva.


sábado, 10 de janeiro de 2009

Debate franco-português sobre o Sião / การถกเถียงระหว่างอาจารย์ชาวฝรั่งเศษกับอาจารย์ชาวโปรตุเกสเกียวกับประวัตติศาสตร์ประเทศสยาม


A convite de Xavier Galland - historiador francês aqui estabelecido e que tem publicada obra apreciável no domínio das relações franco-siamesas - travei hoje interessante debate na Faculdade de Belas Artes de Silpakorn. Muitos alunos e professores, curiosidade e alguma perplexidade por verem um português numa sessão sobre a cultura francesa na Ásia. Não houve nem mortos nem feridos na contenda, pois tratava-se de matéria há muito sanada:
- A imposição pela Santa Sé e da famigerada Propaganda Fide a Portugal da submissão aos vicários apostólicos que Luís XIV quis ver no sudeste-asiático;
- O ultraje do nosso Padroado do Oriente às mãos da Société des Missions-Étrangères;
- O clamoroso fracasso dos bons prêtres gauleses na conversão dos siameses;
- A revolução "xenófoba" de 1688 e o triunfo moral dos portugueses, que salvaram do esquartejamento os "bons padres" e continuaram em terras do Sião após a partida dos soldados que o Rei Sol aqui enviou.
Foi difícil, pois os predicados de Galland tornaram-me a tarefa penosa. Os franceses possuem a rara qualidade de falar bem e com éclat, expor com clareza e terem, sempre, a lição bem alinhavada. Eu, como português, vali-me da nossa emérita prosápia e capacidade do improviso, que sempre fazem o seu efeito devastador, pois perante tanta segurança tomam-nos por peritos. Eu, do Sião do século XVII pouco mais li que o Journal de l'abbé de Choisy, as Mémoires du comte de Forbin, a Relation des Révolution arrivée à Siam dans l'année 1688, de Desfarges e a bibliografia contemporânea que trata da revolução siamesa de 1688. Pois bem, mas guardara uma arma secreta para a utilizar no momento derradeiro.
A França aqui chegou com promessas de ajuda contra holandeses e britânicos, semeou copiosa intriga contra os portugueses, instalou-se e, no fim, quis obrigar o Rei Narai à conversão e estabelecer-se manu militari no Sião. Tratou-se de uma verdadeira intriga internacional. Em Versalhes, os padres das Missions Étrangères, protegidos pela amante do Rei (ou antes, sua mulher secreta, Madame de Maintenon), quiseram fazer crer ao Rei Cristianíssimo que o Sião estava maduro para aceitar a missionação e conversão a Roma. Foram ao Papa, mentiram-lhe e prometeram-lhe um novo Japão, ou seja, um absoluto sucesso de conversões.
Daí, com a ajuda de um aventureiro grego (Constantine Phalkon) que pelo Sião subira tão alto que se transformara em valido do rei de Ayuthia, encheram a cabeça do monarca siamês de projectos expansionistas, construíram-lhe um palácio de pedra e água corrente, edificaram-lhe um observatório astronómico e convenceram-no que grandes dias estavam para chegar. Phalkon, que trabalhara como embarcadiço na fleet da Honourable East India Company e que depois estivera em Java trabalhando por conta própria em negócios de "import-export" que roçavam a pirataria, era casado com uma luso-japonesa. Falava e escrevia bem a nossa língua, como se impunha a qualquer homem de negócios, pois que o português era e permaneceria até meados do século XIX língua franca nas relações internacionais do extremo-oriente e sudeste-asiático.
Mentiu a ingleses, trapaceou persas - que aqui possuiam importante actividade comercial - e tentou mentir aos portugueses. Os portugueses de então não eram propriamente ingénuos nestas andanças, pelo que tudo fizeram para impedir a aventura francesa, lesiva para os interesses portugueses e igualmente perigosa para a minoria católica luso-siamesa existente em Ayuthia. O Professor Galland ofereceu uma imagem vívida da embaixada do Rei Sol, encabeçada por um tolo arrogante que dava pelo nome de Chevalier de Chaumont, huguenote recém convertido ao catolicismo, logo mais católico que os católicos, mais zeloso na exibição da recente fé e cheio de afã apostólico roçando a agressividade. O Grego, sabendo os franceses absolutamente virgens em tudo o que tocava o protocolo asiático, disse ao embaixador de Luís XIV que o Rei de Ayuthia o receberia do cimo de uma varanda e que ele [embaixador] devia depositar a carta de Luís XIV numa bandeja de ouro. Depois e mil e um acertos, os franceses lá se predispuseram e foi realizada cerimónio de recepção em Lopburi, cidade a norte da capital. Ora, afinal o embaixador francês fez papel de vassalo, pois os vassalos do Sião não se podiam colocar à altura do Grande Rei Narai e limitavam-se a vê-lo de baixo.
Foi aqui que lancei a minha V2 de algibeira. Tirei da carteira a Embaixada ao Sião de Pero Vaz de Siqueira (1684-1686), transcrita na íntegra do pó dos arquivos por Leonor de Seabra, traduzida magistralmente para o inglês por Alan Baxter e publicada em 2005 pela Universidade de Macau graças ao empenho do Professor António Vasconcelos de Saldanha enquanto Presidente do Instituto Português do Oriente. Nesse extenso relato de 400 páginas, o que salta à vista é coisa que espantou os nossos amigos franceses: o Embaixador português não foi recebido na varanda, sentou-se frente ao Rei Narai de botas e espada e com ele travou de igual para igual as matérias relevantes da missão que o levava ao Sião. Assim, para os siameses, as únicas relações de Estado a Estado eram com Portugal e os outros, franceses, ingleses e holandeses estavam ao mesmo nível das delegações de Patani, dos Shan, dos principados laocianos e outros tributários. Era como se quisessem fazer crer ao actual embaixador de França em Banguecoque que o Rei tailandês só o recebia se aquele se deitasse ao comprido no chão e o saudasse com as mãos em posição de oração um pouco acima da testa ! Os franceses fizeram-no e o Rei siamês pensou que não passavam de enviados de um seu admirador na distante Europa.
Enganados os franceses, tratou-se de enganar os siameses, enviando-lhes uma embaixada a França para fazer crer ao Rei Sol que novos súbditos se haviam constituído no remoto Oriente. A embaixada, a bordo do Soleil D'Orient - com elefantes, animais exóticos, muito ouro e prata - afogou-se nas Tormentas. Nova embaixada se preparou, desta vez com arribada bem sucedida à Europa. Ora, em Versalhes, o embaixador siamês Kosa Pan, foi confrontado com a imposição da "ajuda militar" francesa ao Sião; por outras palavras, como se hoje um qualquer governo pedisse ajuda à França e esta lhe enviasse, não conselheiros e meios, mas um exército. Assim chegaram ao outro extremo do mundo seis meses depois. Lançaram pé em terra e ocuparam Banguecoque. Logo,
um levantamento nacional anti-francês levou a um golpe palaciano, o Grande Rei Narai "foi acometido de morte súbita" e o seu valido Grego despedaçado. Caçados como lebres, os franceses fugiram e acabou em tragédia uma enorme teia de mal entendidos. A França estava, decididamente, virgem em tudo que ao Oriente dizia respeito. Por tais paragens só se voltariam a ver em meados do século XIX !
Foi uma tarde bem passada entre pessoas inteligentes e dialogantes, tratando daquilo que me apaixona; ou seja, do passado, pois que o presente pouco me diz. Talvez daqui a trezentos anos me venha a interessar pelas andanças da politiquice portuguesa e siamesa de inícios do século XXI.


Publicado em Combustões, 10.01.2009

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O único homem livre da Birmânia

A estupidez inteligente e as vozes informadas só se referem a Aung San Suu Kyi quando se trata de apresentar o rosto de uma Birmânia em luta pela liberdade e pelos direitos civis. Se Aung San Suu Kyi é filha e herdeira política testamentária de Aung San - ex-comunista convertido à variante japonesa do fascismo, cavaleiro da Ordem do Sol Nascente por imposição directa do imperador Hirohito, em 1943 - há um outro homem em Yangoon (Rangun) que inspira terror à ditadura militar. Trata-se do príncipe Tan Paya, neto do rei Thibaw, último da dinastia Konbaung, afastado do trono pelos britânicos em 1885, no rescaldo da terceira guerra anglo-birmanesa e enviado para o exílio na Índia, onde morreu quase na miséria em 1916.
Se a activista anti-regime pode ser retida em prisão domiciliária, os seus partidários mortos, espancados ou atirados para o exílio, num príncipe de sangue ninguém se atreve tocar. O ancião diz o que pensa num país onde pensar é quase um delito, deliciando-se quando afirma, referindo-se ao estado degradante de controlo a que chegou o país que "se alguém dá um flato cá em casa, há sempre alguém que leva a nova à Junta Militar". Os militares temem-no, pois Tan Paya é um símbolo de uma velha Birmânia pré-colonial onde o rei era tido como um deus vivo. Cometer o sacrilégio de atentar contra a vida de um homem com tal árvore genealógica é caminho certo para uma reencarnação descendente, pelo que os generais fingem não compreender este homem que se recusa vestir como um colonizado, recebe em sua casa jornalistas ocidentais, se recusa prestar fidelidade à constituição e se refere à Birmânia como "o meu país". Os tiranos abominam os reis, que lhes lembram a sua insignificância passageira, mas raramente se atrevem tocar-lhes. Só nós, portugueses - ou antes, "eles", os tais que tinham 5% em 1910 - quiseram resolver o destino do país matando o Rei na praça pública. Ou seja, neste particular, os republicanos portugueses excederam largamente o atrevimento homicida da Junta Militar birmanesa.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Bangkok: catolicismo quer dizer Portugal


A catedral de Assunção, sede do arcebispado de Banguecoque, acolheu hoje milhares de católicos tailandeses para a celebração do Natal de Cristo. As paredes exteriores do grande edifício estavam cobertas com faixas com as cores verde-rubra, em declarada alusão à marcante influência de Portugal na implantação do cristianismo nestas paragens do mundo.
No interior, cercando a nave central, bandeiras de Portugal decoravam a magnífica catedral construída pelos padres franceses em inícios do século XX. Durante séculos, ser-se católico na Ásia era sinónimo de português. Portugal, mais que um Estado, era uma ideia de fraternidade entre os homens, um sentimento de unidade para além das fronteiras. Estes "portugueses" detinham importante lugar no Camboja, no Vietname, na actual Malásia, no Sião e na Birmânia, sendo-lhes atribuídas funções relevantes na administração, no exército e no comércio. Sendo súbditos de reis, eram "portugueses", com direito a foros de isenção e liberdades no quadro das monarquias budistas. Deixaram de ser considerados quando em Portugal, com a criação da cidadania (1820), se viram privados de declararem fidelidade a duas pátrias, a terra onde haviam nascido e o sentimento de pertencerem a uma comunidade de fé que tinha no Padroado da Índia o seu centro de irradiação.


Com as doze badaladas da meia noite e um intenso fogo de artifício que quase fazia saltar os vitrais, a entrada da Cruz Processional, precedida pelos turibulários, sineiros e círios encheu o templo de solenidade, enquanto o coro entoava o Gloria in excélsis Deo / Et in terra pax homínibus bonae voluntatis / Laudámus te benedícimus te adorámus te glorificámus te (...). Os orientais possuem apurado sentido da grandeza litúrgica. As muitas dezenas de rapazes avançaram em passo cadenciado enquanto a multidão benzia-se ou fazia o wáy tailandês (cumprimento similar à posição de oração). Como requer a cultura local, as expressões faciais não denunciam qualquer emoção, pois o controlo das paixões da alma é tido como uma conquista de si mesmo.

A entrada do Cardeal de Banguecoque, Michael Mitchai Kitbunchu, velho amigo de João Paulo II, aumentou a emoção. É um homem ainda vigoroso e ágil, no andar e no falar, não obstante os oitenta anos. Há um ano, em visita de cortesia à catedral, na companhia de um grande amigo meu, grande historiador da Ásia Portuguesa, Sua Eminência apareceu-nos de calções e sapatos de ténis, pois acabara de chegar, suado e felicíssimo, do jogging que diariamente exercita. Foi deveras estranho ver dois portugueses beijando o anel cardinalício ... a um cardeal em trajo de corrida ! Hoje ostentava os grandes paramentos das cerimónias festivas. Fala com desenvoltura e não deixou de referir o ano atribulado, mas depressa amenizou a multidão, fazendo-a rir, ao afirmar que só podia dar alguns presentes - bonecos para as crianças com menos de 5 anos - pois "Deus nunca dá tudo de cada vez. Esperem pelo próximo ano para ver se nessa altura Deus vos quer dar algo mais". Seguiu-se o beijo aos pés de Cristo Menino ao som de Sánctus pléni sunt caéli et terra glória tua (...). Foi uma noite de Natal diferente, longe da família, longe do bacalhau e do chiffon de chocolate, mas senti-me entre a minha gente, entre os "portugueses da Tailândia".A Igreja católica tailandesa não tem mais de meio milhão de fiéis, mas é activa, quase militante, possuindo orgãos de comunicação social, colégios, escolas técnicas e uma universidade. Desmultiplicando-se am acções no apoio às populações mais carenciadas, facto que muito tem contribuído para o grande respeito que lhe tributam as autoridades, parece ter um risonho futuro, que confirmei pela juventude dos muitos padres ordenados. Se o nosso MNE quer um aliado precioso na Tailândia, deve bater à porta da Igreja Católica. Ali, o nome de Portugal, mais que respeitado, é amado.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Bangkok: a Veneza do Oriente em soberba exposição


Os olhos não se cansam e os pés não param com tantos eventos de primeiras águas. Os tailandeses, decididamente, adquiriam as técnicas mais arrojadas e lançam-se em catadupa de exposições que, no Ocidente, entrariam pela porta grande dos maiores museus e salas de exposição. Hoje, depois de horas de leitura na biblioteca - sintomaticamente lendo uma memória histórica sobre a fundação de Banguecoque - visitei a Art of Yesterday, Art of Tommorow - patente no já aqui referido Bangkok Cultural Center.


Krung Thep Maha Nakhon, ou antes, Banguecoque para os ocidentais, era um simples lugarejo em meados do século XVIII, primeira paragem fluvial para o trade junk oriundo de Macau. Após fiscalização da carga e tripulação na foz do rio Chao Phraya (o rio em forma de serpente que atravessa a actual megalópole), as mercadorias eram transvasadas para embarcações de menor calado e transportadas para Ayuthia, então capital siamesa. Em 1767, Ayuthia foi assaltada e saqueada pelos exércitos birmaneses e o Estado thai entrou em colapso. Um líder surgiu nesse momento trágico e liderou a resistência ao invasor. O novo homem forte, Phya Taksin, verificando a indefensibilidade da antiga capital devastada, instalou-se em Tonburi, hoje cidade satélite de Banguecoque, situada da margem oposta do rio. O seu sucessor, general Chakri, fundador da actual dinastia, foi coroado rei em 1782 e decidiu erigir uma nova cidade na margem esquerda do Chao Phraya, menos exposta a incursões inimigas.


Os primeiros dias da nova mandala thai restaurada não foram fáceis: guerras intermináveis contra os birmaneses, penúria monetária e matérias primas, rarefacção demográfica e quase total ausência de funcionários qualificados. A dinastia Chakri queria demonstrar ocupar legitimamente o trono, pelo que não olhou a meios e sacrifícios para se lançar numa política de grandes obras que exibissem a restauração do Estado. Para o efeito, recorreu-se à pedra e tijolos da antiga capital, abriram-se portas à vaga de imigração chinesa, redesenhou-se a estrutura social dirigente. Nesses dias, muitos homens oriundos dos estratos sociais mais humildes ascenderam na administração e serviço do Rei. Entre eles pontificavam muitos católicos luso-siameses, que ocupariam doravante e até à década de 1860 postos relevantes. Nos frescos do novo coração do Estado, o complexo de palácios e templos, armazéns, casamatas e escritórios, aí estão eles, os portuguet, de mosquete e espingardas de pederneira em riste defendendo a cintura de muralhas.



Povo anfíbio, "civilização hidráulica", "economia do arroz", o Reino do Sião construiu a sua capital em terrenos propícios à produção e escoamento do precioso gramíneo. Os canais (artificiais) que até há décadas substituíam as estradas, abertos pelo trabalho obrigatório das corveias do sistema sakdina - "feudalismo siamês - de que eram isentos os portuguet, merecereram a curiosidade dos viajantes europeus, que passaram a referir-se a Banguecoque como a "Veneza do Oriente".


Em meados do século XIX, a capital do Sião mostrava o desiquilíbrio e diversidade característicos das grandes cidades agro-mercantis do sudeste-asiático. Tal como Rangoon na Birmâmia, sobre o Irrawady e Saigão sobre o Song Sai Gon, possuía um núcleo administrativo e religioso com grandes edifícios de prestígio, envolvido por um dédalo de caminhos cercados de construções de materiais perecíveis, com lojas para a rua no andar térreo e habitação no primeiro piso, habitadas por siameses. Outras "baixas" comerciais e industriais nasceram em zonas mais distantes, acolhendo comunidades étnicas de origem vária, sobretudo chineses, mas também indianos e malaios, que se foram fixando e afirmando ao longo do século XIX. Os "enclaves" das minorias religiosas, "mouros" e católicos, desenvolveram-se na zona ribeirinha em torno de mesquitas e igrejas.


O impacto ocidental foi traumático, crescendo de intensidade a partir dos meados do século XIX e levando o Sião a adaptar-se cultural, tecnológica e institucionalmente ao Ocidente, sob pena de ser considerado um "Estado bárbaro" e intervencionado pelo leão britânico, que entretanto se apossara da Birmânia e sultanatos malaios, e pelo galo francês que havia cravado unhas sobre os actuais Laos e Camboja, territórios outrora vassalos do Sião. Datam das décadas de 1870, 1880 e 1890 os grandes edifícios públicos de aparato, feitos à imagem da arquitectura de pedra, cimento e ferro europeus. Soluções arquitectónicas híbridas, onde a mão de arquitectos, decoradores, pintores e desenhadores italianos é marcante, expressam a angustiosa procura de um "modelo siamês" integrado numa linha internacional.

A Banguecoque clássica - programa urbanístico e monumental com declarada intensão restauracionista vazado de Ayuthia - terminou no último quartel do século XIX, quando a macademização, a recepção do urbanismo e edificação de estilo ocidentais se sobrepuseram. O Sião conheceu transformações económicas e sociais aceleradas durante os reinados de Rama V e Rama VI. A construção do Estado moderno estava praticamente realizada, sustentada pela ideologia de uma via siamesa para a autocracia (desenhada a partir do modelo russo dos últimos Romanov e pelo Raj britânico sobre a Índia), mas também pela crescente afirmação do nacionalismo.


Em 1932, um golpe militar e o anúncio da imposição de um regime constitucional, abriu novo capítulo na história do país. O novo regime, nascido com a aprovação do Rei Rama VII, depressa deixou revelar as suas verdadeiras fontes de inspiração: as ideologias da modernidade então prevalecentes no mundo entre-guerras, ou seja, o comunismo e os fascismos.

No fim dos anos 30, os novos dirigentes do Sião, vendo na preservação da monarquia um forte bastião reactivo à escalada totalitária que subscreviam, impuseram uma regência e precipitaram a saída e abdicação de Rama VII, que morreria no exílio na Grã-Bretanha em 1941. O país, agora regido pelo filo-fascista Phibun Songkram (พิบูล สงคราม), transformou Banguecoque no centro de experiências de duvidoso alcance e resultado, aplicando nas obras públicas um programa cujo objectivo era o de exibir o nascimento de um Estado-nação étnica e linguisticamente homogéneo. As minorias foram confrontadas com sistemático programa de nacionalização compulsiva, os siameses submetram-se à brutal política de "thaificação" - paradoxalmente, o novo regime aboliu os trajos tradicionais, impondo a ocidentalização como conquista da "civilização" - e desenvolveram a mística nacionalista mercê da uniformização, inculcação ideológica, mobilização e propaganda. Em 1940, com o colapso da França ante Hitler, o Sião mudou de nome e passou a chamar-se Tailândia. Os exércitos tailandeses iniciaram uma guerra com a Indochina Francesa, atacando o Camboja para a recuperação dos territórios da margem esquerda do Mécongue, outra vassalos do Sião. Em 1941, o país declarou guerra aos EUA e permitiu a passagem do exército japonês nos ataques à Malaia britânica e Birmânia.



O programa de obras públicas de Phibun marca, ainda hoje, os grandes nós rodoviários da capital. Os monumentos-praça da Democracia, mas sobretudo o
Monumento à Vitória (Anusawari Chai Samoraphum, o único existente no mundo em memória da vitória do Eixo), foram encomendados a arquitectos e decoradores italianos residentes na Tailândia e são, sem tirar nem por, verdadeiras obras de arte fascista com colagem de símbolos siameses. Severamente bombardeada pela aviação Aliada, Banguecoque renasceu dos escombros nos anos 50. Agora cidade alinhada com o Mundo Livre, com os 3 biliões de dólares recebidos dos EUA para se apetrechar de infraestruturas necessárias a uma grande capital, foi rectaguarda logística e de divertimento para centenas de milhares de GI's durante o conflito vietnamita. Deste tempo marcado pela procura de paraísos artificiais, nasceu a indústria de divertimento nocturno, hoje uma sombra do que tará sido nos anos 60, 70 e 80, com os seus bordeis, "ago-go" bares, cabarés, salas de massagens e hotéis de curta permanência. A Tailândia deixou para trás o subdesenvolvimento. A consolidação económica, a industrialização, o nascimento de uma classe média urbana com necessidades de consumo e lazer, resultado da era do desenvolvimentismo a todo o custo que marcaram os regimes militares após Sarit Dhanarajata , converteram-na numa Meca do turismo exótico, com os hotéis de luxo, as grandes superfícies comerciais, os parques e indústrias temáticos fixando "a verdadeira atmosfera thai" (Rose Garden, Jim Thompson House, Snake Farm), a que se juntou, depois, o incentivo governamental a festividades tradicionais ameaçadas pelo desenvolvimento. Banguecoque passou também a emblematizar o caos rodoviário, com interminável congestionamento automóvel, poluição galopante, anomia e desorganização resultantes da chegada de milhões de camponeses em busca de melhores condições de vida. Os últimos anos têm assistido a importantes melhorias. A criação do Metro de Superfíce e do Metropolitano, a limpeza e pintura sistemáticas das fachadas, centrais de tratamento de efluentes e resíduos sólidos estão a dar uma nova cara à capital. As preocupações ambientalistas, muito estimuladas pelo Rei, desencadearam o surgimento de muitas organizações cívicas que se vão impondo aos interesses de construtores e especuladores. Banguecoque muda todos os dias, mas fica sempre Banguecoque.Contudo, para os budistas, o tempo é ilusão: tudo passa, tudo morre, tudo está condenado ao esquecimento. Tal como Sukothai e Ayuthia, ontem grandes capitais siamesas, hoje meros parques arquelógicos, Banguecoque sabe que um dia também desaparecerá, tragada pelas águas ou pela luxuriante natureza. Dou comigo cada manhã, do meu apartamento num 20º andar no centro da zona comercial, a seguir o voo de corvos, das aves de rapina e dos grandes morcegos. Ao descer, nos galhos das árvores saltam esquilos, ratazanas maiores que gatos regressam aos interstícios da terra, cobras de anéis brilhantes e coloridos apanham os primeiros raios de sol. Banguecoque, quando deixar de o ser, ilustrará a vã ilusão do homem em viver para a eternidade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Militante do Bem e do Belo


Foi ontem inaugurada em Banguecoque uma exposição evocativa da Princesa Real Galyani Vadhana, princesa de Naradhiwas (สมเด็จ พระเจ้าพี่นางเธอ เจ้าฟ้ากัลยาณิวัฒนา กรมหลวงนราธิวาสราชนครินทร์), irmã mais velha do Rei, cujas exéquias fúnebres aqui reportei há duas semanas. Morreu após doença prolongada - cancro no cérebro - aquela que foi, ao longo de meio século a mais militante das causas a que hoje se entregam as ONG's.
Graças a Galyani, os elefantes do Sião foram recenseados e protegidos de maus tratos, o comércio de presas proibidas e a exibição em festividades e divertimentos rigorosamente legislada. Em finais da década de 70, a espécie encontrava-se em vias de extinção. Graças ao trabalho da fundação que a princesa animava, o número de paquidermes está em franca recuperação. Ecologista avant-la-lettre, a princesa foi também uma defensora das florestas ameaçadas pela cobiça de madeireinos e construtores civis sem escrúpulos. A ela se ficou a dever a criação de reservas florestais, parques naturais e bibliografia especializada sobre a fauna e flora tailandesas. Ao contrário da Malásia, Camboja, Laos e Birmânia, verdadeiros paraísos para especuladores e devastadores da natureza, a Tailândia tenta corrigir os atropelos do desenvolvimentismo cego e possui, caso raro na Ásia, um vasto público que terça armas pela causa preservacionista.


Galyani foi também a grande amiga dos deficientes profundos: abriu escolas técnicas destinadas a diminuídos físicos e mentais, animou a rede de orfanatos que o país não possuía - hoje um dos emblemas da protecção à infância na Ásia - e espalhou pelas regiões mais remotas a quadrícula de postos de acolhimento, diagnóstico e tratamento de problemas congénitos. Poucos meses antes de morrer, ainda se deslocava de helicóptero de aldeia em aldeia para verificar in loco a efectiva aplicação do seu programa. As associações de protecção aos doentes cardíacos e às crianças autistas receberam da princesa muitos milhões de Euros e são hoje igualmente consideradas modelares.

Nos tempos da guerra contra o comunismo, envergou o uniforme de miliciana e desenvolveu a guerra pela conquista dos corações e das inteligências. A Cruz Vermelha Tailandesa, mais que as tropas governamentais, fez recuar a guerrilha.
Manteve durante toda a vida intensa actividade de promoção de outras culturas. Viajou por todo o planeta, aprendeu e inspirou-se na visita a museus, feiras culturais e exposições, transmitindo o conhecimento adquirido nessa viagens de estudo aos técnicos das instituições que na Tailândia zelam pela preservação, restauro, estudo e divulgação do património arquitectónico, museológico, bibliográfico e arquivístico do país.

Galyani foi, sobretudo, uma mulher de cultura. Deve-lhe o país a difusão do gosto pela música clássica ocidental, a criação de orquestras sinfónicas e o envio de muitos jovens músicos talentosos para as mais renomadas escolas de música e composição do Ocidente. Lembro-me vê-la, semanas antes de morrer, assistir ao concerto para piano 26, de Mozart. Os dedos tamborilavam acompanhando o ritmo e, decaída, ainda sorria. Galyani deixou obra escrita, mas foi como professora da universidade de Thammasat que cultivou e promoveu o gosto pelas letras francesas, de que era incondicional admiradora. É destas pessoas, mais que de merceeiros e contabilistas, que as sociedades modernas precisam, perdidas no frenesim do nada e sem esteio de dignidade para a promoção daquilo que é substância da liberdade.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O grande rei leproso


Príncipe contemporâneo de D. Afonso Henriques sobre cuja infância e juventude pouco ou nada se sabe. Obscuras primícias, com perda de privilégios, enxovalhos e destituição pela mão de um rei usurpador remeteram Jayavarman para os confins de um império khmer decaído e vulnerável. Ali esteve anos estudando e discutindo religião à sombra de um templo bramânico até que, subitamente, por volta dos quarenta anos de idade, a pálida estrela deste desterrado mudou de radiância. Uma invasão brutal e destruidora, o saque e colapso da capital khmer fizeram deste proscrito o salvador do seu povo. O monge fez-se soldado, o estudioso deixou de parte o recolhimento e comandou os exércitos camponeses na reconquista da liberdade. Depois da vitória, corou-se rei e transformou-se no mais ardoroso pregador do budismo, declarando-o religião do Estado. Na tradição khmer dos reis divinos, foi tido como o mais virtuoso dos mortais, o mais rigoroso intérprete da palavra do Iluminado, logo, como Assok o fora para a Índia, um Buda-Rei. Reinou quase meio século e dele ficou a nagara (capital) Angkor Thom que conhecemos. Do "culto da personalidade" que rodeou este génio militar e político ficaram vestígios ainda hoje profundamente enraízados na teoria do poder real que o budismo therevada transporta. O Rei da Tailândia é o último destes monarcas, posto que o Rei do Camboja, reposto no trono após o pesadelo totalitário comunista de Pol Pot, perdeu grande parte do halo sobrenatural que o investia como intermediário entre o cosmos e o mundo dos homens.
Jayavarman foi um rei patriarca e paternal. Doente minado pela insidiosa lepra que lhe corrompeu o corpo e reforçou o espírito, espalhou o bem e a misericórdia. Mandou construir mais de cem hospitais, leprosarias, casas de acolhimento para orfãos e deficientes, rasgou estradas e assegurou protecção a peregrinos, dando-lhes comida, cama e lume. Ao morrer, com noventa anos, mereceria sem dúvida mais santidade que S. Luís de França. Rezam as crónicas reais khmeres que o Rei trabalhou até ao último dia de vida, padecendo de dores lancinantes. Ao morrer, o seu povo chorou-o durante décadas, na lembrança do grande monarca que os retirara das trevas.
É desta aventura espiritual de um homem diminuído mas gigante que nos relata a The King's last Song. É raro um revolucionário religioso (ou político) possuir tacto político. Amenófis IV condenou o Egipto à miséria, como Lutero lançou a Europa na mais perversa e longa das guerras que levaram ao colapso da Respublica Christiana. Basta um homem bom para que o mundo se salve da dor, parece ser o epitáfio do grande Rei.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

E a maioria silenciosa disse presente



E ao terceiro dia, uma massa imensa de gente vinda dos quatro cantos do reino convergiu para Banguecoque para prestar homenagem ao seu Rei no dia em que celebra 81 anos de vida ao serviço do povo. Foi um calvário para chegar ao Terreiro Real (Sanam Luang), em frente do palácio amuralhado que foi o berço desta grande cidade. Não me fiando nas minhas falaciosas estimativas, socorro-me dos noticiários: cem mil pessoas. Pobres, ricos, muito ricos, gente de todas as etnias e religiões, velhos, novos e crianças de colo ali estiveram horas à espera da breve cerimónia das velas.
O Rei não esteve presente, como nunca acorreu a tal festa, mas estiveram todas as instituições que decidem o ser e não ser deste país: as forças armadas, as universidades e escolas técnicas, os sindicatos, os grupos empresariais, o monacado budista, as organizações assistenciais, os veteranos das guerras contra o comunismo e o sub-desenvolvimento.
Senti a força amável deste povo civilizadíssimo na atitude estóica com que aguentou a eternidade que precedeu o acto público. As pessoas ficam caladas, ou falam baixo, sorriem e brincam sem gesticular e sem gritar. Uma massa de amarelo, muitas fotofrafias do Rei, em cada mão uma vela amarela ou flores amarelas. Tocou-me a pose hierática das delegações dos colégios militares, a indiferença à dor da pose hirta dos cadetes, rapazes e raparigas, como me espantou o tom altivo mas não arrogante dos milhares de escuteiros perfilados e alinhados.
Os tailandeses não são maníacos da organização como o são os japoneses, nem possuem o espírito de formigueiro organizado que os chineses insistem em mostrar ao mundo sempre que se lhes pede uma demonstração de força. Os thais são informais, muito afeitos à personalidade de cada, pelo que o holismo que aqui se diz existir vive na tensão entre o espírito comunitário e preceitos que ninguém se atreve infringir e o aquela dose de irreverência simpática com que cada um tenta distinguir-se do grupo. A maior arma dos thais é o sorriso. Parece uma banalidade, mas não é. Nesta terra, só o Rei não sorri, fiel à crença budista que afirma tratar-se do estádio supremo de perfeição humana que precede o nirvana. Se atentarem nas fotos, não há pessoa que não tenha as comissuras sorridentes.De súbito, a grande banda da marinha executa o hino monárquico e a multidão que até aí estivera em silêncio transforma-se num coro em que cada um tenta sobrepor-se à voz do parceiro. Uma liturgia impressionante. As pessoas cantam e os olhos brilham de orgulho. Cada um acende a sua vela e a noite faz-se dia. Nunca assisti a tal coisa na minha vida. Um alto dignitário escolhido para o efeito lê uma longa declaração em louvor do Rei, posto que pede aos presentes que reiterem um juramento de fidelidade ao Rei. É o velho juramento que vem desde os tempos do Rei Trailok (século XV) e que obriga cada um a purificar o coração, oferecendo-o ao trono através de um comovente movimento de entrega da vida ao interesse colectivo consubstanciado na figura do Rei.
Terminado o juramento, uma marcha patriótica tendo como fundo uma cascata de fogo de artifício com as cores nacionais. Furo a barreira policial. Devem ter julgado ser um jornalista farang, pelo que me envolvi na alta roda da nata da aristocracia que se encontrava no palco do terreiro.
Aqui está a aristocracia que serve a dinastia há mais de duzentos anos. Percebi estarem unidos por laços de sangue, mas sobretudo por uma cultura de corte que faz deste país terreno difícil para as arremetidas do lodaçal plutocrático. Foram gentilíssimos.
Sorriram, fizeram pose e um alto dignitário disse-me: "come, joint to us and take pictures has your pleasure". Não posso deixar de reparar que é gente de bela presença, finas maneiras, falar quase inaudível como manda a educação da corte. Que diferença entre esta estirpe que venceu batalhas e fez este país e a gandulagem suburbana feita gente que assaltou o poder no Ocidente e nada mais traz na cabeça que o tilintar do venal dinheirinho. Esta aristocracia tem uma vantagem. Não possui títulos nem é hereditária, como o era a ocidental, o que a faz aberta ao mérito e capaz de profundas alianças estratégicas com o povo chão. Família aristocrática sem mérito e sem folha de serviços volta, após cinco gerações à estaca zero. Aqui parece reunir-se o melhor antídoto à inveja revolucionária do dinheiro: a união entre o povo e o rei servida por uma aristocracia de serviço. Hoje, pela primeira vez desde que aqui estou, cantei a plenos pulmões o "sadudi Maha Rahja, sadudi Maha Rahjinii" (saúdo-vos meu Rei, saúdo-vos minha Rainha). A maioria não é só a força bruta do número, mais o papel verde. A maioria também é, deve ser, a força da qualidade. Fiquei aquietado após o sobressalto de ontem. Aqui, "eles" terão de passar por cima de toda esta gente para implantar a tal coisa repelente que vigora em tantas paragens da orbe.
A Maioria Silenciosa disse o que tinha a dizer ! Pronto.